O que antes parecia inegociável agora virou aliança estratégica. O ex-deputado estadual e ex-candidato ao governo de Mato Grosso do Sul, Renan Barbosa Contar, o Capitão Contar, decidiu se filiar ao Partido Liberal e deve disputar o Senado com o aval do ex-presidente Jair Bolsonaro. A mudança marca uma reviravolta completa na trajetória de quem, até pouco tempo atrás, se apresentava como símbolo da “nova política” e da luta contra o sistema.
Durante o mandato na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul, Contar chegou a protocolar pedido de impeachment contra o então governador Reinaldo Azambuja. À época, o discurso era duro: denúncias públicas, acusações graves e a tentativa de se posicionar como antagonista direto do poder estabelecido. Agora, no entanto, o ex-militar admite dividir o mesmo palanque com o antigo adversário sob o argumento de que a união seria necessária para “a direita avançar” em 2026.
A mudança de tom não é apenas política é simbólica. A retórica de enfrentamento deu lugar à conciliação pragmática, alimentando críticas de incoerência e oportunismo eleitoral. Antigos apoiadores, que enxergavam em Contar um outsider guiado por princípios rígidos e combate intransigente à corrupção, passaram a questionar se a chamada “nova política” resistiu ao primeiro teste real de sobrevivência partidária.
Do combate ao silêncio
O contraste fica ainda mais evidente diante de recentes revelações envolvendo a concessionária de saneamento Aegea. Delatores citaram políticos influentes do estado como beneficiários de supostos pagamentos ilegais para quitar dívidas de campanha em troca da manutenção da concessão de água e esgoto em Campo Grande. Entre os nomes mencionados estão figuras centrais da política sul-mato-grossense inclusive o próprio Azambuja.
Diante de acusações que, no passado, certamente motivariam discursos inflamados, o silêncio de Capitão Contar chama atenção. A ausência de posicionamento público contrasta com a postura combativa que o projetou politicamente e aprofunda a percepção de que a conveniência eleitoral passou a falar mais alto que a coerência.
A erosão do discurso
Na prática, a guinada expõe um fenômeno recorrente na política brasileira: a transformação de adversários em aliados conforme o calendário eleitoral avança. O problema, neste caso, é a velocidade e a intensidade da mudança. Quem ontem denunciava um suposto “sistema criminoso” hoje depende exatamente dele para viabilizar a própria candidatura.
Para parte do eleitorado conservador mais fiel, a movimentação soa menos como estratégia e mais como rendição. E, ao trocar o confronto pela acomodação, Capitão Contar corre o risco de perder justamente o capital político que o tornou competitivo: a imagem de independência.
Se a política permite alianças improváveis, a memória do eleitor costuma ser menos flexível. Em 2026, mais do que explicar a nova composição de forças, Contar terá de responder a uma pergunta simples e potencialmente devastadora: o que mudou, afinal, além do interesse eleitoral?



















