A sede da empresa Multifer, investigada por contratos que ultrapassam R$ 1,5 milhão com a Fiems (Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso do Sul), funciona em um imóvel residencial sem qualquer identificação empresarial, na Vila Planalto, em Campo Grande. No local, não há placa, fachada comercial ou movimentação típica de empresa que negocia cifras milionárias.
A reportagem esteve no endereço informado como sede da matriz junto à Receita Federal. A campainha foi acionada, mas ninguém atendeu. Apenas um cachorro no quintal indicava que o imóvel é habitado. Não havia qualquer indício externo de funcionamento comercial.
A empresa, que tem capital social declarado de R$ 300 mil, assinou contratos que somam R$ 1.097.943,00 com o sistema Fiems. Considerando também contrato firmado por outra empresa dos mesmos sócios, o montante chega a R$ 1.502.944,07. O caso é alvo de inquérito civil instaurado pelo MPMS, sob responsabilidade do promotor Humberto Lapa Ferri, da 31ª Promotoria de Justiça. O procedimento tramita sob sigilo.
Contratos e coincidências societárias
A Multifer razão social Souza Alves & Cia Ltda. – EPP — firmou dois contratos com a Fiems entre julho e dezembro de 2022. O primeiro, no valor de R$ 641.978,17 (já com aditivo de R$ 127.178,17), foi para fornecimento de materiais elétricos. O segundo, de R$ 455.965,90, destinou-se ao fornecimento de EPIs.
Já em outubro de 2023, outra empresa com os mesmos sócios a Inovaseg Comercial de Equipamentos e Serviços Ltda. firmou contrato de R$ 405 mil para fornecimento de materiais elétricos ao Senai, entidade vinculada à Fiems.
As duas empresas pertencem a Evanildo Albuquerque da Rosa e Diogo (ou Diego) de Souza Alves, conforme registros públicos da Receita Federal. Ambas têm como atividade principal o comércio de ferragens e ferramentas.
A coincidência de sócios, objetos sociais semelhantes e contratos sucessivos com a mesma entidade levanta questionamentos que agora estão sob análise do Ministério Público.
Sede discreta, contratos robustos
Causa estranheza que uma empresa responsável por contratos milionários com o sistema industrial tenha como sede um imóvel sem qualquer identificação comercial. Em tempos de cobrança por transparência e governança, o mínimo que se espera de entidades que administram recursos de interesse público é rigor na seleção, fiscalização e acompanhamento de fornecedores.
A ausência de identificação no endereço declarado, somada ao fato de o local aparentar ser apenas uma residência comum, reforça a necessidade de esclarecimentos detalhados.
Sócio também atua no interior
As apurações do Ministério Público apontam ainda que um dos sócios, Diogo Alves, também integra a Agropecuária DJD, sediada em Rochedo. A empresa atua na criação de suínos e declarou, em 2023, a criação de 6.500 porcos para obtenção de autorização ambiental junto ao Imasul para captação subterrânea de água.
Até o momento, não foram localizados contratos públicos em nome da agropecuária.
Silêncio das partes
A reportagem tentou contato com a Multifer e com a Fiems, mas não obteve retorno. O espaço segue aberto para manifestação.
Enquanto isso, o inquérito segue sob sigilo, aumentando a expectativa por respostas claras sobre os critérios de contratação, a estrutura operacional das empresas envolvidas e a efetiva entrega dos serviços contratados.
Em um cenário em que recursos do sistema industrial impactam diretamente trabalhadores e empresas, a sociedade cobra transparência — e não portas fechadas.
Com informações do site Midiamax






















