A Prefeitura de Campo Verde, administrada pelo prefeito Alexandre Lopes de Oliveira (União Brasil), voltou a ficar no centro de questionamentos sobre gastos públicos após autorizar a compra de materiais para salas multissensoriais da rede municipal de ensino com indícios de preços muito acima dos praticados no mercado.
O investimento, que soma R$ 1.563.254,34, foi destinado à aquisição de 43 itens por meio da empresa Vera Lucia Cruz Móveis & Ambientes Integrados Ltda. Os recursos já estão reservados no orçamento da Secretaria Municipal de Educação de 2026, e o pagamento integral está condicionado à entrega dos equipamentos, prevista até o próximo dia 16.
Difusor de aromas custará quase sete vezes mais
Entre os itens que mais chamam atenção está um difusor elétrico de aromas de 500 ml, equipado com controle remoto e temporizador. A prefeitura concordou em pagar R$ 694,06 por unidade, enquanto equipamentos com características semelhantes são encontrados no comércio por valores entre R$ 42 e R$ 105.
Considerando o maior preço encontrado no varejo, a diferença chega a aproximadamente 563%, levantando questionamentos sobre a economicidade da contratação.
Outros equipamentos também apresentam diferenças expressivas
O levantamento dos valores contratados mostra que o difusor não é um caso isolado.
Entre os exemplos estão:
- Caixa de luz escrevível: contratada por R$ 6.793,55 cada, enquanto modelos semelhantes são vendidos por cerca de R$ 1.044,90;
- Gerador de ruído branco: comprado por R$ 580,10, embora aparelhos equivalentes custem entre R$ 72,90 e R$ 119,87;
- Kit de discos sensoriais de silicone: adquirido por R$ 1.620, enquanto produtos similares são encontrados entre R$ 99,90 e R$ 297,99.
As diferenças chamam atenção principalmente porque envolvem equipamentos de uso relativamente comum e disponíveis em diversos fornecedores do mercado nacional.
Falta de especificação técnica
Além dos preços, a documentação da contratação apresenta outra inconsistência.
Dos 43 itens previstos, 34 aparecem identificados apenas como “Marca Própria”, sem informar fabricante, modelo ou especificações completas, inclusive em equipamentos eletrônicos. A ausência dessas informações dificulta a comparação técnica entre o produto contratado e os similares comercializados no mercado.
Contratação ocorre durante investigação da Operação Gomorra
A compra acontece enquanto a administração municipal enfrenta desdobramentos da segunda fase da Operação Gomorra, conduzida pelo Núcleo de Ações de Competência Originária Criminal (Naco Criminal) com apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).
Segundo decisão do desembargador Jorge Luiz Tadeu Rodrigues, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), o prefeito Alexandre Lopes de Oliveira é investigado por supostamente participar de um esquema envolvendo contratos que ultrapassariam R$ 29 milhões.
As investigações apuram suspeitas de:
- desvio de aproximadamente 70 mil litros de combustível;
- pagamento por locação de veículos inexistentes;
- manutenção de bens que não pertenciam ao patrimônio municipal;
- utilização de atas de registro de preços supostamente irregulares para contratação de serviços.
Conforme os autos, o prefeito teria atuado como ordenador de despesas, assinando contratos e autorizando pagamentos, enquanto integrantes da administração seriam responsáveis pela execução operacional e fiscalização dos contratos investigados.
A Justiça também autorizou a quebra do sigilo fiscal de empresa ligada às investigações e determinou a análise do material eletrônico apreendido durante a operação.
Defesa do prefeito
Após a deflagração da segunda fase da Operação Gomorra, Alexandre Lopes divulgou vídeo em suas redes sociais afirmando ser inocente.
Segundo o prefeito, foi a própria administração municipal que solicitou, há mais de um ano, uma auditoria interna sobre os contratos relacionados à frota e ao abastecimento de veículos, encaminhando posteriormente os resultados aos órgãos de controle.
Ele também sustentou que apenas assinou uma ata respaldada por parecer favorável da Procuradoria Jurídica e afirmou que mais de uma centena de municípios aderiram ao mesmo instrumento. O gestor declarou ainda que continuará colaborando com as investigações e disse confiar no esclarecimento dos fatos.
Até o momento, não há decisão judicial definitiva sobre as suspeitas investigadas, e os fatos seguem sob apuração pelas autoridades competentes.






















