Rede de Atenção Psicossocial opera com déficit de unidades, profissionais e leitos enquanto governo completa oito anos sem implantar um novo CAPS no DF
O Distrito Federal atravessa uma crise silenciosa, porém profunda, na área da saúde mental. Enquanto o governo de Ibaneis Rocha (MDB) e Celina Leão (Progressistas) enfrenta turbulências políticas com o escândalo envolvendo o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB), a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do DF permanece marcada por escassez estrutural, déficit de profissionais e ausência de expansão dos serviços.
Especialistas, usuários e movimentos sociais apontam que o descaso com a saúde mental não é pontual, mas resultado de anos de omissão administrativa. O dado mais emblemático é que, em oito anos de gestão, nenhum novo Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) foi implantado no DF.
Cobertura insuficiente e estrutura precária
Atualmente, o DF conta com apenas 18 CAPS, dos quais 14 são habilitados pelo Ministério da Saúde. O índice de cobertura é de 0,54 CAPS habilitados por 100 mil habitantes — menos da metade da média nacional, que é de 1,13. Considerando a população estimada em quase 3 milhões de pessoas em 2025, seriam necessários ao menos mais 18 CAPS habilitados para que o DF alcançasse a média brasileira.
Além disso, a rede dispõe de apenas uma Unidade de Acolhimento (com 15 vagas), nenhuma Unidade de Acolhimento Infantil (UAI), dois Serviços Residenciais Terapêuticos (SRTs) e nenhum Centro de Convivência. Nos hospitais gerais, existem somente 59 leitos clínicos destinados à saúde mental, quando o parâmetro técnico indicaria cerca de 130.
O último CAPS criado no DF foi o CAPS I de Brazlândia, inaugurado em março de 2018, ainda antes da posse de Ibaneis Rocha. Desde então, a rede não foi ampliada, apesar do crescimento populacional e do aumento expressivo da demanda por atendimento psicológico e psiquiátrico — especialmente no contexto pós-pandemia.
Falta de profissionais e sobrecarga
A precariedade estrutural é agravada pela ausência de concursos públicos para especialistas há mais de uma década. O DF ocupa apenas a 20ª posição entre as 27 unidades federativas no número de psiquiatras, enfermeiros, assistentes sociais e psicólogos alocados em CAPS.
Na prática, isso significa equipes incompletas, atendimentos espaçados, dificuldade de acompanhamento contínuo e sobrecarga de trabalhadores. Usuários relatam demora para consultas, interrupção de terapias e dificuldades no acesso a medicamentos.
Orçamento reduzido e prioridades questionadas
Mesmo diante desse cenário, o orçamento da saúde sofreu cortes expressivos. Para 2026, houve redução de aproximadamente R$ 1,1 bilhão, após contingenciamento superior a R$ 400 milhões em 2025. Paralelamente, o governo anunciou medidas de contenção de gastos.
Críticos da gestão afirmam que os cortes atingem diretamente as políticas públicas essenciais, enquanto outras áreas recebem tratamento prioritário. A percepção é de que a saúde mental não figura entre as prioridades do Executivo local.
Uma dívida histórica não cumprida
Em 2010, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) ajuizou ação determinando a construção de 19 novos CAPS para que o DF atingisse parâmetros mínimos estabelecidos pelo Ministério da Saúde. Desde então, apenas cinco unidades foram implantadas — nenhuma durante os dois mandatos de Ibaneis Rocha. Ainda faltam 14 unidades apenas para cumprir a decisão original, que já está defasada em relação à população atual.
O impacto social do abandono
A ausência de uma rede estruturada de saúde mental tem consequências diretas: aumento de internações psiquiátricas, judicialização de tratamentos, sobrecarga das emergências hospitalares e risco de retrocesso para modelos manicomializantes.
Movimentos da luta antimanicomial alertam que o enfraquecimento da RAPS abre espaço para soluções centradas na institucionalização e na privatização do cuidado, em detrimento de um modelo comunitário, territorial e baseado no Sistema Único de Saúde (SUS).





















