Auditoria revela falhas graves na gestão da saúde, com aparelhos parados, leitos bloqueados e contratos milionários sob suspeita
A saúde pública do Distrito Federal enfrenta um cenário crítico de gestão e infraestrutura. Auditorias do Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) revelaram que cerca de 80% dos equipamentos médicos da rede pública estão sem cobertura contratual de manutenção, o que compromete o funcionamento de hospitais, unidades de pronto atendimento e serviços especializados.
Segundo o levantamento, apenas aproximadamente 20% dos aparelhos possuem contratos de manutenção preventiva e corretiva firmados pela Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF). A ausência desse suporte técnico tem provocado paralisação de equipamentos essenciais e redução da capacidade de atendimento nas unidades.
Equipamentos quebrados reduzem atendimento
O impacto da falta de manutenção já atinge diretamente pacientes e profissionais de saúde. No Hospital Regional da Asa Norte (HRAN), 11 incubadoras ficaram paradas por mais de um ano aguardando conserto, o que levou ao bloqueio de quatro leitos da UTI Neonatal.
Situação semelhante foi identificada no Hospital Regional de Santa Maria, onde mais de 100 ventiladores pulmonares com defeito foram armazenados em um depósito, sem previsão de reparo devido à falta de contrato de manutenção.
Nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), o problema também se repete. Em Ceilândia, ventiladores mecânicos e monitores cardíacos permanecem inoperantes há quase três anos. Já no Recanto das Emas, exames de raio-X chegaram a ser suspensos após a quebra do computador do equipamento, enquanto um aparelho digital novo ficou meses guardado sem instalação.
Contratos sob investigação
As irregularidades também levantaram suspeitas sobre a gestão de contratos. O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) e o TCDF ampliaram a fiscalização sobre o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (Iges-DF), responsável pela administração de hospitais e UPAs.
Um contrato para manutenção de equipamentos hospitalares, inicialmente estimado em R$ 9,8 milhões, chegou a R$ 34 milhões após sucessivos aditivos. Mesmo com o aumento do valor, auditorias indicam que diversos aparelhos continuam sem funcionamento.
Entre as irregularidades apontadas pelos órgãos de controle estão:
- falhas na execução dos serviços contratados;
- justificativas frágeis para atrasos nos consertos;
- ausência de inventário atualizado de equipamentos;
- pagamentos por manutenção preventiva em aparelhos já quebrados ou em uso.
Falta de insumos e déficit de médicos
As inspeções também identificaram escassez de materiais básicos, como luvas, gaze, algodão e medicamentos. Em diversas unidades, foram registrados problemas estruturais, incluindo infiltrações, ar-condicionado quebrado e instalações deterioradas.
Outro problema apontado é o déficit de profissionais de saúde, especialmente médicos nas UPAs. Em alguns plantões, apenas um médico é responsável por toda a unidade, o que gera filas prolongadas e restrição no atendimento de casos menos graves.
Atualmente, mais de 13 mil pacientes aguardam cirurgias eletivas no Distrito Federal, enquanto mais de 150 mil pedidos de consultas e exames especializados permanecem na fila.
Determinações do tribunal
Diante da gravidade do quadro, o TCDF determinou que a Secretaria de Saúde e o Iges-DF apresentem planos imediatos para regularizar os contratos de manutenção e recuperar equipamentos parados.
O tribunal também exigiu revisão de pagamentos e maior rigor na fiscalização dos serviços contratados. Segundo os conselheiros, a falta de manutenção não apenas compromete o atendimento à população, mas também aumenta os custos públicos, já que o governo acaba recorrendo à contratação de leitos na rede privada para suprir a incapacidade da rede própria.























