CORUMBÁ

Trabalho remoto sem transparência e nomeação levantam suspeitas na gestão municipal de Corumbá

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A nomeação de uma assessora especial que reside a 426 quilômetros de Corumbá expôs fragilidades na gestão do prefeito Gabriel Alves de Oliveira (PSB) e reacendeu o debate sobre uso político de cargos comissionados, falta de transparência e possível desvirtuamento da função pública.

Por meio da Portaria nº 824, publicada em 6 de novembro do ano passado, o prefeito nomeou Ana Cristina Accioly para o cargo em comissão de Assessora Especial III (DAG-04), vinculada à Secretaria Municipal de Governo e Gestão Estratégica. O salário bruto, somado à folha complementar, chega a R$ 7.950 mensais, pagos com recursos públicos.

O problema, segundo servidores municipais ouvidos pela reportagem, é que ninguém nunca viu a assessora cumprir expediente na prefeitura. Após dois meses da nomeação, colegas do setor passaram a questionar a efetiva prestação de serviço, levantando a suspeita de que o cargo poderia se tratar de uma “funcionária fantasma”, prática historicamente associada a má gestão e desperdício de dinheiro público.

Decreto ignora realidade do cargo?

O Decreto Municipal nº 3.557/2023 estabelece que, como regra, servidores devem comprovar frequência por meio de ponto eletrônico. A dispensa do controle é restrita a cargos específicos e, mesmo assim, condicionada ao cumprimento integral das atribuições, sempre observando os princípios constitucionais da legalidade, moralidade e eficiência.

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Embora o texto preveja exceções, estas exigem ato formal e fundamentado do prefeito, algo que, até o momento, não foi tornado público. Não há informações disponíveis sobre qual regime de controle de frequência estaria sendo aplicado à assessora, nem quais atividades justificariam o exercício remoto permanente do cargo.

A ausência de publicidade desses atos contraria o discurso de modernização administrativa e levanta dúvidas sobre tratamento privilegiado dentro da máquina pública.

Trabalho remoto a 426 km da cidade

Em entrevista ao Midiamax, Ana Cristina Accioly negou irregularidades e afirmou que trabalha remotamente desde Campo Grande, enviando relatórios à prefeitura e comparecendo a Corumbá “ao menos duas vezes por mês”.

A declaração, no entanto, não dissipa as dúvidas, mas amplia os questionamentos:
– Onde estão esses relatórios?
– Quem fiscaliza o cumprimento das tarefas?
– Qual a real necessidade de um cargo estratégico ser ocupado por alguém fora da cidade, sem rotina presencial conhecida?

A própria assessora afirmou que buscou a vaga justamente por permitir trabalho à distância, o que reforça a percepção de que o cargo pode ter sido moldado para atender interesses individuais, e não o interesse público.

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Perfil empresarial incompatível com a função?

Outro ponto que chama atenção é o fato de a assessora ser microempresária ativa, atuando na área de pós-produção cinematográfica e audiovisual — atividade que, à primeira vista, não guarda relação direta com as atribuições estratégicas de uma secretaria de governo municipal.

A situação alimenta críticas recorrentes sobre cargos comissionados serem usados como instrumentos de acomodação política, sem critérios técnicos claros ou compatibilidade funcional.

O silêncio da administração municipal agrava a desconfiança, especialmente em um contexto de cobrança por austeridade, eficiência e responsabilidade no uso do dinheiro público.

Enquanto servidores enfrentam rotinas rígidas, controle de ponto e baixos salários, a existência de cargos bem remunerados, com presença invisível e regras pouco claras, fere o princípio da isonomia e mina a credibilidade da gestão.

A população de Corumbá segue sem respostas — e o caso se soma a uma longa lista de episódios que exigem mais transparência, menos improviso e maior respeito ao cidadão contribuinte.

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