Após aumentar salários dos vereadores, presidente da Câmara impõe corte a comissionados para conter gastos que ele próprio ajudou a inflar. Servidores veem medida como repasse seletivo da crise e denunciam maquiagem fiscal.
Em mais um capítulo da política de “austeridade seletiva” que tomou conta da Câmara Municipal de Campo Grande, o presidente Epaminondas Neto, o Papy (PSDB), anunciou um corte de 5% nos gabinetes dos vereadores, com início em novembro e duração prevista de três meses. A medida, vendida como prevenção fiscal, escancara, na verdade, a má gestão orçamentária que vem marcando a atual legislatura.
O discurso de “responsabilidade fiscal” contrasta fortemente com decisões recentes da própria Casa, como o reajuste nos salários dos vereadores — um aumento que, segundo o próprio Papy, ajudou a comprometer o orçamento. A pergunta inevitável é: se há crise, por que aumentar salários? E se havia previsão de queda na arrecadação, por que inflar a folha?
Mais uma vez, o peso da “austeridade” recai nos comissionados , enquanto os vereadores, blindados pelos próprios atos, decidem como repassar o corte — seja por exonerações ou redução salarial. A liberdade dada a cada gabinete para aplicar o corte esconde, na prática, uma terceirização da crise. O presidente lava as mãos e joga nas costas dos parlamentares e seus assessores o ônus de equilibrar uma conta criada, em grande parte, por decisões políticas internas.
Medidas paliativas, falta de planejamento
O corte nos gabinetes não é a única “solução” apresentada por Papy. A redução do expediente da Câmara para meio período — medida que causou revolta entre servidores e questionamentos sobre a eficiência do serviço público — e a mudança de prédios administrativos são outras ações vendidas como economia. Mas os R$ 20 mil mensais economizados com aluguel não compensam nem de longe os prejuízos causados por decisões desastrosas como o aumento dos subsídios parlamentares e a concessão de décimo terceiro aos vereadores.
O presidente fala em “previsão orçamentária para 2026”, mas não explica por que tais previsões não impediram o reajuste nos próprios salários, tampouco por que medidas mais robustas não foram adotadas antes de comprometer a saúde fiscal da Casa. O que se vê é um discurso contraditório: um Legislativo que reclama de falta de recursos ao mesmo tempo em que estoura os próprios limites com gastos autoconcedidos.
Servidores denunciam maquiagem da crise
Entre os servidores, a insatisfação é crescente. Muitos veem na medida uma forma de punir os comissionados e proteger a elite política da Casa. A expressão “repasse seletivo da crise” ganhou força nos corredores da Câmara. Para os funcionários, não se trata de falta de dinheiro, mas de falta de prioridade com a base do funcionalismo.
A promessa de que o corte não atingiria os servidores de carreira é frágil. A médio prazo, qualquer compressão orçamentária que afete o funcionamento dos gabinetes inevitavelmente respinga no dia a dia da Casa — seja pela sobrecarga de trabalho ou pela redução de serviços essenciais.
“Corte em nós mesmos”? Só na narrativa
Papy tenta blindar a si mesmo e aos colegas com o argumento de que o corte é “em nós mesmos”. Mas, na prática, os vereadores continuam com salários reajustados e nenhuma perda direta. O impacto, mais uma vez, será sentido pelos comissionados, muitos dos quais já operam com vencimentos baixos e instabilidade contratual.
Fica claro que, longe de ser uma “decisão difícil, mas necessária”, como tenta pintar o presidente, a medida é uma tentativa desesperada de tampar o buraco cavado por uma gestão fiscalmente irresponsável e politicamente insensível. Ao invés de assumir os erros, a cúpula do Legislativo transfere o ônus para os mais vulneráveis, tentando maquiar uma crise que ela mesma ajudou a provocar.
Conclusão:
A gestão de Papy à frente da Câmara de Campo Grande revela-se cada vez mais marcada por improviso, contradições e falta de compromisso com o interesse público. Austeridade de verdade começa por cima — e não cortando na base enquanto se mantém privilégios intocados. O que se vê, neste caso, é uma política de aparência, com decisões que priorizam a imagem do presidente em detrimento do funcionamento eficiente e justo da Casa Legislativa.
A crise, portanto, não é inevitável — é fabricada. E tem responsáveis claros.






















