Ao afirmar que “não existe perspectiva de melhora da economia” do Distrito Federal e anunciar novos cortes para ajustar as contas públicas, o governador Ibaneis Rocha tenta impor à população uma narrativa de crise inevitável. Em entrevista à TV Globo, nesta quinta-feira (8), Ibaneis atribuiu à frustração de receitas estimada em cerca de R$ 2 bilhões em 2025 a impossibilidade de manter o atual nível de despesas do governo. A solução apresentada envolve parcelamento de pagamentos, redução de serviços e mais sacrifícios à população.
O discurso, no entanto, não resiste a uma análise mais cuidadosa dos números e, sobretudo, das decisões tomadas ao longo do próprio governo.
Enquanto hospitais públicos enfrentam colapso financeiro, acumulam dívidas e fecham leitos situação dramática vivida, por exemplo, pelo Hospital da Criança de Brasília , outras áreas do governo jamais sofreram com a escassez alegada pelo governador. O contraste mais evidente está no transporte público. Mesmo em cenários de queda de demanda e crise econômica, as empresas de ônibus continuaram recebendo volumosos subsídios públicos, garantindo rentabilidade ao setor privado.
Somente em 2022, os repasses extraordinários ao transporte coletivo ultrapassaram R$ 1,1 bilhão. Atualmente, o subsídio anual gira em torno de R$ 1,6 bilhão. Em nenhum desses momentos a “economia ruim” foi apresentada como obstáculo. Quando o objetivo era assegurar lucros às concessionárias, os recursos apareceram — e em abundância.
A contradição se aprofunda quando se observa o tamanho do orçamento do Distrito Federal. A previsão orçamentária para 2026 é de aproximadamente R$ 74 bilhões. Não se trata, portanto, de falta absoluta de dinheiro, mas de uma disputa política clara sobre prioridades. Ao longo do mandato, o governo Ibaneis optou por preservar subsídios milionários, aprovar créditos suplementares com baixa transparência e proteger setores empresariais estratégicos, enquanto a saúde pública acumulava passivos bilionários e dependia, não raramente, de decisões judiciais para manter contratos básicos em funcionamento.
O discurso do “cinto apertado” funciona, assim, como uma transferência de responsabilidades. Juros altos, economia nacional, frustração de receitas — tudo é utilizado como justificativa para atrasar pagamentos a hospitais, fornecedores e prestadores de serviços essenciais. Curiosamente, essas mesmas dificuldades nunca impediram que recursos públicos fossem direcionados a grupos economicamente influentes.
A crise que hoje atinge serviços básicos no Distrito Federal não é apenas econômica. É, sobretudo, política e administrativa. Resulta de escolhas feitas ao longo de anos, e não de um colapso súbito e inevitável da arrecadação. Quando empresários têm subsídios garantidos independentemente do cenário econômico, mas hospitais públicos precisam implorar para receber, a hierarquia de prioridades do governo se revela de forma inequívoca.
Ao tentar convencer a população de que não há alternativa senão cortar serviços essenciais, Ibaneis Rocha busca naturalizar consequências que são, na realidade, fruto direto de sua própria gestão. O que está em jogo no Distrito Federal não é uma fatalidade econômica, mas um modelo de governo que escolheu claramente quem proteger e quem sacrificar.





















