Silvio Assis

Luxo, poder e velhas suspeitas: o lobista que expõe as contradições da política brasileira

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As imagens de Silvio Assis brindando com espumante ao lado da senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), em uma loja da grife Louis Vuitton, em Orlando (EUA), são mais do que um registro casual de férias. Elas simbolizam, de forma quase caricata, a promiscuidade histórica entre poder político, lobismo obscuro e interesses privados que insistem em sobreviver no coração da política brasileira.

Assis não é um personagem qualquer. Trata-se de um lobista conhecido nos bastidores de Brasília, com um longo histórico de investigações, prisões e acusações graves, que vão desde suspeitas de corrupção e extorsão até envolvimento em esquemas de venda de registros sindicais e negociações ilícitas relacionadas à compra de vacinas contra a Covid-19. Ainda assim, segue transitanto livremente entre políticos influentes, festas exclusivas e ambientes de luxo.

O episódio nos Estados Unidos ganhou ainda mais gravidade quando se recorda que, segundo reportagem da revista Veja publicada em dezembro de 2024, a senadora Soraya Thronicke mantinha em seu gabinete a irmã e o genro de Assis como assessores parlamentares. A proximidade, portanto, não é fortuita nem recente  e levanta questionamentos éticos incontornáveis.

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Natural do Amapá, Silvio Assis construiu sua trajetória em meio a controvérsias. Ex-proprietário de jornal local e apadrinhado político de José Sarney, deixou o estado após episódios envolvendo violência e acusações de ligação com o crime organizado. Em Brasília, reinventou-se como “operador do mercado financeiro”, rótulo frequentemente usado por personagens que atuam na zona cinzenta entre o lobby legal e a influência indevida.

No início dos anos 2000, teve prisão determinada pela Justiça Federal por desobedecer convocações da CPI do Narcotráfico. Anos depois, acumulou cerca de uma centena de ações trabalhistas por não pagar funcionários do portal de notícias Fato Online, fundado em 2015 com a promessa de profissionalismo e independência editorial  promessa que não resistiu à realidade financeira e jurídica do empreendimento.

A lista de episódios se estende. Em 2018, Assis foi preso pela Polícia Federal após aparecer em gravações negociando a venda de registros sindicais no Ministério do Trabalho, em troca de R$ 3,2 milhões em propina. Em outros momentos, foi citado em denúncias envolvendo empresários do setor de apostas on-line e em acusações ligadas à negociação da vacina Covaxin, um dos maiores escândalos da pandemia.

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Apesar disso, sua casa no Lago Sul, área nobre de Brasília, tornou-se ponto de encontro de deputados, líderes partidários e empresários. Jantares políticos, festas badaladas e reuniões informais fizeram do imóvel um símbolo da naturalização da influência sem transparência. Entre os frequentadores já citados em reportagens estão nomes como o ex-líder do governo Ricardo Barros (PP-PR) e o ex-deputado Luis Miranda, que afirmou ter recebido oferta de propina relacionada à Covaxin.

O flagrante em uma loja de luxo nos Estados Unidos, portanto, não é um detalhe fútil. Ele escancara o abismo entre o discurso público de moralidade, responsabilidade e compromisso com o interesse coletivo  frequentemente repetido por autoridades  e a prática privada de relações próximas com personagens cercados de acusações.

Mais do que um constrangimento individual, o caso expõe uma ferida estrutural: a incapacidade do sistema político brasileiro de romper definitivamente com figuras que orbitam o poder mesmo após sucessivos escândalos. Enquanto isso, o cidadão comum segue pagando a conta  longe do espumante, das grifes e das portas sempre abertas nos salões de Brasília.

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