Há histórias que revelam, de maneira quase involuntária, o desencontro entre a urgência da vida e o ritmo lento das estruturas públicas. Não é necessário recorrer a grandes discursos ou estatísticas para perceber esse contraste. Às vezes basta um telefonema.
Na manhã deste domingo (15), a família de Francisco de Freitas recebeu uma ligação da Secretaria de Saúde do Distrito Federal. A atendente confirmava o agendamento de uma ecocardiografia para a manhã de segunda-feira. O exame fazia parte da investigação de um quadro cardíaco que preocupava médicos e familiares. Havia apenas um detalhe impossível de ignorar: Francisco já havia morrido.
A morte ocorreu dias antes, após um período de agravamento de seu estado de saúde. Durante mais de duas semanas ele aguardou um leito de UTI, passando pela UPA de São Sebastião e tentando alternativas que pudessem garantir o atendimento necessário. Exames apontavam comprometimento progressivo de órgãos e a indicação médica era clara quanto à necessidade de acompanhamento intensivo. A transferência, no entanto, nunca se concretizou.
Nos últimos momentos, Francisco estava cercado pela esposa e por amigos próximos. A despedida aconteceu de forma silenciosa, sem discursos e sem explicações definitivas. Ficou a sensação amarga de que o tempo da doença corre mais rápido do que o tempo das respostas institucionais.
Quando o telefone tocou neste domingo para confirmar o exame, a família ouviu uma informação que, semanas antes, teria sido recebida com esperança. Agora, a notícia chegou apenas como um lembrete tardio de algo que já não poderia mudar o desfecho da história.
Situações como essa não precisam de exageros para causar impacto. Elas falam por si mesmas. Revelam o quanto a distância entre a necessidade urgente de um paciente e a resposta do sistema de saúde pode ser maior do que deveria.
Francisco já não estava ali para ouvir aquela confirmação. O exame finalmente apareceu na agenda. A pessoa que precisava dele, não.
Fonte Diário de Ceilândia























