A Prefeitura de Amambai, município localizado a 338 quilômetros de Campo Grande, prorrogou por mais um ano o contrato de gestão de frota firmado com a empresa Centro América Comércio, Serviço, Gestão Tecnológica LTDA (CNPJ 09.179.444/0001-00), uma das investigadas em esquema de corrupção envolvendo diversas cidades de Mato Grosso. A decisão reacende questionamentos sobre critérios de contratação, transparência e responsabilidade na aplicação de recursos públicos.
O extrato do quarto termo aditivo de prazo ao Contrato nº 4.323/2025 foi publicado no Diário Oficial da Assomasul (Associação dos Municípios de Mato Grosso do Sul) desta sexta-feira (6). O valor do aditivo chega a R$ 7.839.057,83, com vigência prorrogada por doze meses, entre 9 de fevereiro de 2026 e 7 de fevereiro de 2027.
O objeto da contratação prevê a prestação de serviços de gestão de abastecimento e fornecimento de combustíveis, além do gerenciamento de manutenções corretivas e preventivas da frota municipal por meio de software via web. O pacote inclui ainda fornecimento de peças, materiais de consumo e demais insumos necessários para o funcionamento de veículos e máquinas da prefeitura.
Sombra da Operação Gomorra
A prorrogação ocorre mesmo após a deflagração da Operação Gomorra, em novembro de 2024, que cumpriu mandados de busca e apreensão contra integrantes do grupo familiar proprietário da empresa. Entre os citados nas investigações está Jânio Corrêa da Silva, representante da empresa no contrato com Amambai e sobrinho de Edézio Corrêa, apontado como líder do suposto esquema.
À época, as apurações colocaram sob suspeita contratos firmados com mais de 100 prefeituras e câmaras municipais em Mato Grosso, levantando indícios de fraudes, direcionamento e sobrepreço em serviços de gestão de frotas públicas.
Volume milionário de contratos
Mesmo sob investigação, a Centro América já havia acumulado, até maio de 2025, cerca de R$ 69,2 milhões em contratos apenas em Mato Grosso do Sul. O volume expressivo reforça a necessidade de escrutínio público e de atuação rigorosa dos órgãos de controle.
A decisão da Prefeitura de Amambai de manter e ampliar o vínculo contratual, sem explicações detalhadas sobre eventuais medidas de cautela, levanta críticas sobre a postura administrativa diante de uma empresa associada a um escândalo de grande repercussão regional.
Falta de transparência e responsabilidade
Especialistas em gestão pública apontam que, embora a simples investigação não impeça automaticamente a contratação com o poder público, a continuidade de contratos milionários em tais circunstâncias exige justificativas robustas, mecanismos de compliance e total transparência — elementos que, até o momento, não foram devidamente apresentados à sociedade.
A ausência de esclarecimentos objetivos alimenta a percepção de tolerância com riscos elevados na gestão do dinheiro público. Em tempos de escassez orçamentária, cada decisão administrativa deveria priorizar segurança jurídica, economicidade e confiança social.
Dinheiro público sob suspeita
A prorrogação do contrato, portanto, vai além de um ato burocrático. Trata-se de uma escolha política e administrativa que expõe a população ao risco de novos prejuízos caso as irregularidades investigadas venham a se confirmar.
Sem transparência, fiscalização efetiva e respostas claras, a conta — como de costume — recai sobre o contribuinte. E a insistência em manter relações milionárias com empresas sob suspeita reforça uma velha prática da administração pública brasileira: a normalização do questionável enquanto a sociedade aguarda, mais uma vez, por responsabilização que raramente chega.





















