Documentos internos circulam fora do fluxo oficial, expõem justificativas administrativas de agentes e levantam questionamentos sobre a proteção de dados em missões acompanhadas pelo STF
Um vazamento de documentos do Sistema Eletrônico de Informações (SEI) do governo federal colocou no centro do debate a fragilidade da segurança digital e os riscos decorrentes da exposição indevida de servidores públicos envolvidos em missões de alta complexidade. O episódio envolve a Secretaria Nacional de Políticas Penais (SENAPPEN) e atinge diretamente integrantes do Grupo de Ações Especiais Penais (GAEP) unidade responsável por operações sensíveis no sistema penal federal.
A circulação externa de uma justificativa administrativa, que deveria permanecer restrita ao fluxo interno da pasta, transformou um procedimento burocrático em narrativa pública de constrangimento. O caso ganhou repercussão após reportagem do portal Metrópoles abordar a ausência de “check-ins” na plataforma Wellhub, benefício corporativo vinculado à prática de atividade física, por parte de um agente do GAEP.
Da burocracia à exposição
Segundo o documento interno que vazou, o agente Pedro Gonçalves da Silva, identificado como chefe substituto do GAEP, explicou a impossibilidade de registrar presença em academias conveniadas durante o período em que esteve designado para coordenar a custódia do ex-presidente Jair Bolsonaro, a partir de 22 de novembro de 2025. Na justificativa, ele aponta a sensibilidade da missão, o regime de dedicação integral e a inviabilidade de deslocamento para cumprir a formalidade exigida pelo sistema.
A justificativa, no entanto, extrapolou o âmbito administrativo. Tornou-se conteúdo público, sujeita a leituras descontextualizadas e a uma exposição que, para especialistas em segurança institucional ouvidos pela reportagem, não contribui para a transparência e amplia riscos operacionais.
Imagem distorcida e narrativa pública
Outro ponto que gerou críticas foi o uso de imagens na cobertura do caso. As fotos publicadas referem-se ao ex-presidente em deslocamento para atendimento médico, não ao agente mencionado nos documentos, o que pode induzir o leitor a interpretações equivocadas sobre quem é o profissional alvo da reportagem.
Nos bastidores, integrantes do sistema penal avaliam que a abordagem confunde o debate público ao personalizar uma falha procedimental e desconsiderar a natureza da função exercida. A atividade física, lembram, é parte da rotina funcional desses policiais, que precisam manter níveis elevados de prontidão.

Prontidão comprovada, penalização formal
Ainda de acordo com os registros internos, o agente apresentou comprovação de atividades físicas por meio do aplicativo Strava, com treinos realizados em vias públicas e parques, alternativas compatíveis com a logística restrita de uma missão de custódia permanente.
Para fontes da própria SENAPPEN, o problema expõe um choque entre a rigidez dos sistemas de controle e a realidade operacional de unidades de elite. “O foco virou o formulário, não a missão”, resume um servidor sob condição de anonimato.
Risco institucional e falha de governança
O aspecto mais sensível do episódio, contudo, é o vazamento em si. A exposição de documentos que detalham justificativas, rotinas e designações de agentes do GAEP levanta dúvidas sobre a governança do SEI e os mecanismos de controle de acesso e sigilo. Missões desse tipo são monitoradas pelo Supremo Tribunal Federal, com relatórios diários, justamente pelo potencial de risco envolvido.
Especialistas em segurança pública alertam que a divulgação seletiva de informações internas pode comprometer a integridade dos agentes, facilitar mapeamentos indevidos e fragilizar operações. “Não se trata de blindar o Estado de críticas, mas de reconhecer que transparência não é sinônimo de exposição operacional”, afirma um analista ouvido pela reportagem.



















