Enquanto a população de Campo Grande enfrenta filas, superlotação e a longa espera por atendimento nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e Centros Regionais de Saúde (CRSs), uma situação ainda mais grave foi escancarada: pacientes e acompanhantes estão passando fome.
A denúncia, agora formalizada e investigada pela 76ª Promotoria de Justiça, aponta que a Prefeitura de Campo Grande não está garantindo alimentação básica nas unidades de saúde de urgência e emergência. A vistoria realizada pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) constatou que acompanhantes de pacientes seguem sem refeições – um direito mínimo, especialmente quando permanecem por dias ao lado de seus familiares em condições precárias.
A Secretaria Municipal de Saúde Pública (SESAU), que desde setembro não conta com um(a) secretário(a) titular, tornou-se símbolo de um sistema desgovernado e ineficiente. A falta de comando em uma das áreas mais sensíveis da administração pública reflete diretamente no caos enfrentado por quem mais precisa: os usuários do SUS.
Falta comida. Falta gestão. Falta respeito.
O promotor de Justiça Marcos Roberto Dietz cobrou da SESAU, por meio de ofício, explicações sobre o fornecimento de refeições – ou a ausência delas – nas UPAs e CRSs da capital. Entre os questionamentos, estão informações sobre a abertura de licitação para regularizar o serviço, a média de pacientes e acompanhantes atendidos, os canais de comunicação sobre o direito à alimentação, e quais medidas emergenciais estão sendo tomadas para evitar o agravamento do problema.
A resposta? Até o momento, silêncio.
Enquanto a burocracia emperra o andamento do processo administrativo nº 001128/2025-57, famílias inteiras seguem dependendo da boa vontade de terceiros ou improvisando refeições no improviso – isso quando conseguem algo.
A situação expõe não apenas um descaso administrativo, mas uma violação de direitos humanos básicos. Pacientes que já enfrentam o sofrimento físico de uma internação de emergência agora também precisam lidar com a insegurança alimentar. A permanência prolongada nas unidades, muitas vezes por falta de leitos hospitalares, se transforma em um cenário de abandono e negligência.
Cobranças e promessas vazias
A ausência de respostas da SESAU mostra que, mesmo após a vistoria do MPMS, não há urgência para resolver o problema. A falta de planejamento é tamanha que o município ainda não apresentou sequer um cronograma atualizado para regularização do serviço de alimentação – que deveria ser básico em qualquer unidade de saúde.
Em um município com orçamento bilionário, não garantir o mínimo para quem está em situação de vulnerabilidade nas UPAs e CRSs é, no mínimo, inadmissível. Não se trata apenas de comida – trata-se de dignidade.
Até quando a população vai pagar por essa negligência?
A crise na saúde de Campo Grande é mais do que administrativa: é humanitária. Enquanto os gestores públicos evitam assumir responsabilidades, quem sofre é a população.
O Ministério Público faz sua parte, mas cabe agora à Prefeitura sair da letargia, assumir seu papel e oferecer uma resposta urgente – e não apenas burocrática – à altura da gravidade da situação.
Se comida falta, o que mais pode faltar amanhã?






















