Caso expõe sombras antigas do império empresarial dos Mendes
A cadeia de fatos que envolve o governador de Mato Grosso, Mauro Mendes Ferreira (União Brasil), voltou a lançar luz sobre um passado de movimentações financeiras suspeitas e relações empresariais nebulosas que há anos circulam nos bastidores da política mato-grossense. Agora, porém, o caso chega aos tribunais superiores: o Superior Tribunal de Justiça (STJ) recebeu o inquérito que apura possíveis crimes de corrupção ativa e lavagem de dinheiro, inicialmente aberto pelo Ministério Público de Rondônia.
O que parecia mais um procedimento engavetado desde 2017 tornou-se uma bomba institucional em 2025. A investigação nasceu de um Relatório de Inteligência do Coaf, que apontou operações bancárias atípicas ligadas aos sócios da AL Incorporações e Participações Ltda – hoje Sollo Construções –, empresa pertencente ao grupo empresarial da família do governador.
Segundo o relatório, uma transação de R$ 1.079.828,00 realizada em 2016 teria servido como ponto de partida para suspeitas de ocultação de origem de recursos. E a lista de pessoas físicas e jurídicas citadas no inquérito é extensa: a primeira-dama Virgínia Mendes, os filhos do governador, Luis Antonio Taveira Mendes e Ana Carolinne Taveira Mendes, além de outras empresas do grupo. Até mesmo a Construtora Odebrecht aparece mencionada no relatório do Coaf.

Foro privilegiado? Não desta vez, avalia Justiça de RO
O caso chegou ao STJ em 22 de agosto de 2025, quando a 3ª Promotoria de Vilhena enviou o processo após identificar a participação de Mendes. O MP justificou o declínio citando o foro por prerrogativa de função do governador – prerrogativa prevista na Constituição.
Contudo, em 13 de outubro de 2025, a juíza Liliane Pegoraro Bilharva, da Comarca de Vilhena, tomou uma decisão que surpreendeu o meio jurídico: enviou o processo para Cuiabá, argumentando que os fatos investigados não teriam relação direta com o exercício do cargo de governador. Assim, não se trataria de situação que justificasse foro especial.
Na prática, a magistrada fez o que muitos críticos do foro privilegiado cobram há anos: impedir o uso do cargo como escudo para eventos que antecedem o mandato.

Grosso pressiona, MP reage e caso chega à Deccor
Em 18 de novembro de 2025, a promotora Daniela Berigo Castor, do Núcleo de Defesa da Administração Pública e Ordem Tributária do Ministério Público de Mato Grosso, determinou que o inquérito fosse encaminhado à Delegacia de Combate à Corrupção (Deccor) de Cuiabá. A ordem é clara: 90 dias para finalizar as apurações.
A medida reforça a gravidade com que o órgão vem tratando o caso — e coloca a Polícia Civil diante de um dos inquéritos mais sensíveis dos últimos anos, envolvendo diretamente o chefe do Executivo estadual e sua família.
O peso político e moral da suspeita
Independentemente do desfecho, o conteúdo da investigação expõe mais uma vez a fragilidade ética da elite política e empresarial mato-grossense. Para um governador que construiu sua imagem pública sobre a bandeira da eficiência, do combate a privilégios e da gestão técnica, a entrada em um inquérito por lavagem de dinheiro e corrupção ativa é um golpe devastador.
Pior: a lista de envolvidos inclui seu núcleo familiar mais próximo. A presença da primeira-dama e de seus filhos nas apurações dá ao caso um contorno ainda mais grave — não apenas jurídico, mas moral.
Mauro Mendes sempre buscou se distanciar de escândalos nacionais e vender-se como um gestor “que faz”, “que entrega”. Agora, porém, precisa explicar por que uma empresa de sua família aparece em uma investigação
























