“ país das maravilhas”

O Distrito Federal da propaganda oficial não existe

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Por trás da publicidade institucional do Governo do Distrito Federal, constrói-se uma realidade paralela que não resiste ao confronto com os dados oficiais, relatos de pacientes e a experiência cotidiana da população.

Nos blogs e sites que recebem verba publicitária do GDF, o Distrito Federal vive uma espécie de “país das maravilhas”. A saúde funciona, a segurança é eficiente, o transporte atende a todos e a gestão é exemplar. Fora desse universo patrocinado, porém, o DF real enfrenta colapso em serviços essenciais, especialmente na saúde pública.

A distância entre a propaganda e a realidade não é apenas retórica — ela é mensurável. Levantamentos recentes indicam que 58,5% da população reprova o sistema público de saúde do DF. O tempo médio de espera por cirurgias eletivas aumentou 535%, passando de 40 dias em 2019 para 254 dias em 2025. Atualmente, mais de 37 mil pessoas aguardam procedimentos cirúrgicos, sendo que 1.388 esperam há mais de cinco anos, sem qualquer previsão de atendimento.

Nos hospitais, a situação se agrava. Pacientes permanecem internados por meses aguardando cirurgias consideradas simples, como a retirada de vesícula, ocupando leitos que deveriam ser rotativos. A taxa de ocupação hospitalar ultrapassa 120% da capacidade, obrigando doentes a permanecerem em macas improvisadas em corredores, enquanto UPAs enfrentam superlotação constante.

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A tragédia se torna ainda mais evidente quando se observam os dados da mortalidade infantil. Apenas nos primeiros 60 dias de 2024, 65 crianças de até um ano morreram em unidades de saúde do DF. Especialistas apontam que parte significativa dessas mortes é evitável, especialmente em contextos de falta de profissionais e estrutura adequada.

Segundo dados do próprio sistema de saúde, faltam mais de 4.800 médicos, 1.600 enfermeiros e 5.000 técnicos de enfermagem na rede pública. A escassez de pessoal sobrecarrega equipes, compromete a qualidade do atendimento e amplia o risco de erros e atrasos fatais.

Enquanto isso, veículos de comunicação financiados com recursos públicos evitam questionar a gestão, silenciam sobre investigações envolvendo autoridades e ignoram denúncias de superfaturamento e má gestão. A verba publicitária, legítima quando usada com critérios técnicos e transparência, transforma-se em instrumento de blindagem política quando utilizada para sustentar uma narrativa que nega a realidade vivida pela população.

Não há espaço, nesses canais, para falar das filas intermináveis, das mortes evitáveis, do desespero de famílias que aguardam atendimento ou enterram seus filhos. A crítica é substituída por releases oficiais, e o jornalismo dá lugar à propaganda.

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O resultado é um DF fictício, vendido a alto custo, pago com dinheiro público — o mesmo dinheiro que falta para contratar profissionais, ampliar leitos e garantir atendimento digno. Para quem enfrenta o DF real, esse “país das maravilhas” não passa de uma mentira cara, sustentada enquanto a população sofre nas filas, nos corredores dos hospitais e na ausência do Estado.

A publicidade pode até maquiar números, mas não apaga a dor de quem vive o colapso diariamente. Essa é a verdade que nenhuma verba institucional consegue esconder.

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