A Polícia Federal concluiu que o desembargador aposentado Júlio Roberto Siqueira Cardoso, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS), utilizou recursos de origem ilícita na compra de um imóvel de alto padrão no litoral da Bahia. As informações constam no relatório final da investigação da Operação Ultima Ratio, encaminhado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e ao Ministério Público Federal (MPF).
Segundo a apuração, há indícios de que o magistrado tenha lavado dinheiro supostamente obtido com a venda de decisões judiciais. A investigação aponta que Júlio Cardoso utilizava, com frequência, dinheiro em espécie em transações imobiliárias.
No dia da deflagração da operação, em 24 de outubro de 2024, agentes da PF apreenderam na residência do desembargador cerca de R$ 2,49 milhões em dinheiro vivo, além de US$ 55,6 mil. Na ocasião, ele estava fora do país.
Pagamentos em espécie e divergência de valores
De acordo com o relatório, o magistrado já havia utilizado valores em dinheiro vivo em outras aquisições. Em 2016, foram R$ 200 mil para a compra de um terreno; entre 2013 e 2016, outros R$ 350 mil foram empregados na aquisição de um apartamento. Já em 2022, a PF identificou o uso de R$ 556,4 mil em espécie na compra de uma casa em condomínio de luxo próximo à praia, na Bahia.
A transação do imóvel é considerada central na investigação. Embora o contrato de compra e venda tenha sido firmado em R$ 2,1 milhões, a escritura pública e a declaração de imposto de renda indicam um valor inferior, de R$ 1.483.660,00 — diferença que, segundo a PF, teria sido utilizada para ocultar a origem dos recursos.
Parte do pagamento incluiu a quitação de um boleto no valor de aproximadamente R$ 509 mil, emitido por uma instituição financeira. A PF identificou que o montante saiu da conta bancária de Otávio Luigi Dalpasquale.
Versões contraditórias e novo indiciamento
Durante as investigações, Volmar Dalpasquale, pai de Otávio e amigo pessoal do desembargador, afirmou ter sido o responsável pelo pagamento do boleto. No entanto, a Polícia Federal considera a justificativa inconsistente.
Para os investigadores, há indícios de que o valor tenha sido posteriormente ressarcido em dinheiro vivo por Júlio Cardoso, utilizando recursos de origem ilícita. Diante disso, Volmar também foi indiciado por lavagem de dinheiro.
“A nosso ver, está demonstrado que a operação teve como objetivo dar aparência de legalidade à aquisição do imóvel, ocultando a utilização de valores provenientes da venda de decisões judiciais”, afirma trecho do relatório.
Silêncio nas investigações
A Polícia Federal informou que intimou o desembargador aposentado em duas ocasiões, em 2025 e 2026, para prestar esclarecimentos. Júlio Cardoso, no entanto, optou por permanecer em silêncio.
Também foram solicitadas informações detalhadas sobre a origem dos recursos utilizados nas aquisições imobiliárias, mas, segundo a PF, as respostas apresentadas foram consideradas genéricas e insuficientes.
Encaminhamento do caso
Com a conclusão do inquérito, o material foi enviado ao ministro Francisco Falcão, do STJ, e ao Ministério Público Federal, que deverá avaliar a apresentação de denúncia formal contra os envolvidos.
A investigação integra um conjunto mais amplo de apurações sobre suspeitas de corrupção no Judiciário sul-mato-grossense, envolvendo a comercialização de decisões judiciais e lavagem de dinheiro.





















