O pecuarista Ivanildo da Cunha Miranda, conhecido nacionalmente por sua delação premiada que levou à prisão do ex-governador de Mato Grosso do Sul, André Puccinelli, voltou ao centro de investigações desta vez por supostos crimes ambientais no Pantanal.
De acordo com o Ministério Público Federal (MPF), Ivanildo é alvo de um inquérito civil que apura danos ambientais decorrentes de queimadas na Fazenda Bonsucesso, propriedade rural com mais de 32 mil hectares. A investigação teve início a partir de uma “notícia de fato” instaurada no ano passado, após indícios de uso irregular de fogo para manejo de pastagem.
Laudos técnicos da Polícia Federal apontam que focos de incêndio registrados entre 2019 e 2020 teriam se originado dentro da fazenda e se espalhado para propriedades vizinhas, atingindo áreas como as fazendas Califórnia, Campo Dânia e São Miguel. O impacto ambiental, segundo os investigadores, foi significativo e atingiu diretamente o bioma Pantanal.
O procurador Alexandre Jabur destacou que a apuração envolve análises complexas, como imagens de satélite, georreferenciamento e perícias ambientais, o que exige aprofundamento técnico para dimensionar os danos e eventual responsabilização civil.
Com o esgotamento do prazo inicial da apuração preliminar, o MPF decidiu converter o caso em inquérito civil, com o objetivo de garantir a reparação integral dos danos ambientais e a recomposição das áreas degradadas. A investigação está inserida no contexto da Operação Mataá.
Operação Mataá
Deflagrada pela Polícia Federal em setembro de 2020, a Operação Mataá cumpriu mandados de busca e apreensão nos municípios de Corumbá e Campo Grande. A ação teve como foco identificar responsáveis por queimadas no Pantanal sul-mato-grossense.
As investigações apontaram que os incêndios destruíram mais de 25 mil hectares do bioma, atingindo inclusive Áreas de Preservação Permanente (APPs) e regiões próximas ao Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense e à Serra do Amolar.
Histórico de autuações ambientais
Não é a primeira vez que Ivanildo enfrenta questionamentos ambientais. Em maio do ano passado, ele já havia sido alvo de investigação do Ministério Público Estadual (MPE) por desmatamento ilegal de cerca de 68 hectares na Fazenda São Félix, em Aquidauana.
Segundo o MPE, a supressão de vegetação ocorreu entre 2016 e 2017 em áreas de reserva legal, sendo identificada anos depois por meio de cruzamento de dados de satélite. O órgão busca firmar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para recuperação da área degradada.
Delação e notoriedade
Ivanildo ganhou projeção nacional após firmar acordo de delação premiada revelando um suposto esquema de pagamento de propina envolvendo frigoríficos e agentes públicos em Mato Grosso do Sul.
Segundo suas declarações, empresas do setor repassavam valores em troca de incentivos fiscais, parte deles destinados ao ex-governador André Puccinelli. O pecuarista afirmou, inclusive, ter participado da entrega de dinheiro em espécie a políticos e intermediários.
As denúncias contribuíram para a deflagração da quarta fase da Operação Lama Asfáltica, em 2018, que levou à prisão de Puccinelli por cerca de cinco meses. O conteúdo da delação foi corroborado por executivos da JBS, incluindo Wesley Batista e Joesley Batista.
Apesar da repercussão, os processos decorrentes dessas investigações ainda tramitam no Judiciário.
Agora, anos depois, o pecuarista volta a enfrentar escrutínio desta vez sob a ótica ambiental em um cenário de crescente rigor na fiscalização de crimes contra o Pantanal, um dos biomas mais sensíveis do país.
























