A audiência realizada nesta terça-feira (19) na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado colocou o Banco Central no centro da crise envolvendo o Banco Master, o Banco de Brasília e uma suposta fraude de R$ 12,2 bilhões investigada pela Polícia Federal.
Convocado para prestar esclarecimentos aos senadores, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, detalhou pela primeira vez em sessão pública os motivos que levaram a autarquia a vetar a tentativa de aquisição do Banco Master pelo BRB e revelou falhas internas na fiscalização do sistema financeiro.
A audiência desta terça ocorreu em meio à repercussão crescente da liquidação extrajudicial do Banco Master e das investigações sobre operações bilionárias envolvendo a venda de carteiras de crédito ao banco público do Distrito Federal.
Galípolo detalha alerta que levou BC a agir
Durante a sessão, Galípolo afirmou que o Banco Central identificou sinais considerados atípicos quando o Banco Master, já enfrentando dificuldades de liquidez, passou a criar novas carteiras de crédito para negociação no mercado.
Segundo o presidente do BC, a prática chamou atenção porque instituições em crise normalmente tentam vender ativos existentes para reforçar o caixa, e não estruturar novas operações financeiras.
“Se você está com dificuldade de dinheiro, você vende carteira. O que chamou a atenção foi justamente a criação de novas carteiras”, afirmou Galípolo aos senadores.
Ele explicou ainda que, sem conseguir apoio via Fundo Garantidor de Créditos (FGC) ou fundos de investimento, o Master passou a intensificar negociações com o BRB, ampliando a venda de créditos ao banco estatal.
BC vetou compra do Master pelo BRB
Um dos principais pontos discutidos na audiência desta terça foi a tentativa do BRB de assumir o controle do Banco Master. Galípolo confirmou que a operação foi barrada pelo Banco Central após análises técnicas apontarem riscos financeiros e inconsistências patrimoniais.
Após a negativa do BC, o Master ainda tentou apresentar uma proposta de saída organizada do mercado envolvendo supostos investidores estrangeiros. Galípolo, porém, afirmou que o Banco Central jamais teve conhecimento formal desses investidores.
Sem alternativa financeira viável, o Banco Master acabou entrando em liquidação extrajudicial em novembro de 2025.
Fraude bilionária e críticas à fiscalização
A Polícia Federal investiga atualmente se os R$ 12,2 bilhões em créditos negociados com o BRB possuem origem fraudulenta ou foram usados para mascarar a situação financeira do banco privado.
Durante a audiência desta terça, o senador Renan Calheiros afirmou que o episódio representa uma “cegueira fiscalizatória deliberada” e criticou a atuação dos órgãos de controle.
Já o senador Eduardo Braga classificou como “gravíssimo” o envolvimento de servidores do próprio Banco Central no caso.
Servidores do BC são investigados
Galípolo confirmou aos parlamentares que investigações internas identificaram dois ex-integrantes da área de fiscalização do BC atuando informalmente em favor do controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro.
Os investigados são o ex-diretor de fiscalização Paulo Sérgio Neves de Souza e o ex-servidor Belline Santana. Ambos foram afastados por decisão do Supremo Tribunal Federal após a Polícia Federal apontar indícios de advocacia administrativa dentro da autarquia.
BC admite falta de estrutura
Ao longo da audiência desta terça-feira, Galípolo também admitiu dificuldades estruturais enfrentadas pelo Banco Central para fiscalizar o sistema financeiro.
Segundo ele, a autarquia perdeu cerca de 1,2 mil servidores nos últimos dez anos, o que obrigou o órgão a concentrar esforços apenas em instituições consideradas de risco sistêmico.
O presidente do BC argumentou que, apesar das limitações, o Banco Central conseguiu identificar rapidamente os problemas envolvendo o Banco Master e encaminhar o caso às autoridades competentes em poucos meses.























