Os professores da Universidade de Brasília aprovaram um indicativo de greve durante Assembleia Geral realizada na última quinta-feira (14), em meio ao agravamento do impasse envolvendo o pagamento da Unidade de Referência de Preços (URP). A decisão foi motivada pela determinação do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), que ampliou de 60% para 100% o mecanismo de “absorção” da parcela salarial, atingindo diretamente a remuneração dos docentes.
Embora a categoria ainda não tenha definido uma data para o início da paralisação, a aprovação do indicativo representa um alerta de que o movimento grevista pode ser deflagrado a qualquer momento caso não haja avanço nas negociações com o governo federal.
Entenda o impasse da URP
A URP é uma parcela incorporada aos salários dos docentes da UnB desde o fim da década de 1980, após sucessivas disputas judiciais relacionadas à reposição inflacionária. Apesar de a unidade ter sido revogada em 1989, professores da universidade mantiveram o direito ao recebimento por força de decisões judiciais ao longo dos anos.
O principal foco da crise atual está na chamada “absorção” da URP. Na prática, o mecanismo faz com que qualquer reajuste salarial, promoção ou progressão funcional seja descontado do valor pago pela rubrica. Com a nova orientação do governo, a absorção passa a ser integral, ou seja, qualquer aumento na remuneração dos docentes deixa de representar ganho real, sendo compensado automaticamente pela redução proporcional da URP.
A categoria considera a medida uma perda salarial indireta e acusa o governo de inviabilizar avanços na carreira docente.
Decisão do governo ampliou tensão
O cenário se agravou após o MGI encaminhar um ofício informando que o Tribunal de Contas da União (TCU) não homologou a extensão automática de um acordo firmado anteriormente com técnicos-administrativos para os professores da universidade. Com isso, o governo federal determinou a aplicação da absorção de 100% da URP aos docentes.
A decisão provocou forte reação da Associação dos Docentes da UnB (ADUnB), que passou a intensificar o processo de mobilização da categoria.
Segundo representantes do sindicato, além da questão remuneratória, há preocupação com a insegurança jurídica envolvendo o tema. Em março de 2025, o Supremo Tribunal Federal reconheceu o direito dos professores à URP, mas a implementação da absorção integral ocorreu antes mesmo do trânsito em julgado do processo.
Docentes ingressantes e aposentados também reclamam
Durante a assembleia, professores também denunciaram problemas enfrentados por docentes que ingressaram na universidade a partir de novembro de 2023. Segundo a categoria, esses servidores nunca receberam a URP e ainda não houve uma justificativa oficial clara para a exclusão do benefício.
Os aposentados também demonstraram preocupação com cortes que, segundo os docentes, já vinham sendo promovidos pelo TCU e que agora podem ser agravados com a nova sistemática de absorção.
STF abre prazo para tentativa de negociação
Apesar do clima de tensão, representantes da categoria enxergaram como positiva uma recente movimentação do STF. Em reunião com a reitoria da UnB e integrantes da ADUnB, a ministra Cármen Lúcia retirou o processo da pauta de julgamento e concedeu prazo de 30 dias para nova análise do caso.
A medida foi interpretada pelos docentes como uma oportunidade para retomada das negociações e eventual construção de uma solução consensual.
Até lá, os professores permanecem em estado de assembleia permanente. Uma nova reunião da categoria foi marcada para o próximo dia 31 de maio, quando poderão ser definidos os próximos passos da mobilização, incluindo a possível deflagração da greve na universidade.




















