"Block no Tigrinho"

“DÊ BLOCK NO TIGRINHO”: ARTISTAS ALERTAM, MAS O ESTADO AINDA DORME

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Campanha lançada pelo coletivo 342 Artes mobiliza a cultura brasileira contra a epidemia de apostas online, mas a omissão regulatória do governo permanece o elefante na sala

No dia 2 de junho de 2026, o coletivo 342 Artes — movimento de mobilizações sociais e culturais liderado pela produtora Paula Lavigne — lançou a campanha “Block no Tigrinho”, reunindo artistas, influenciadores e personalidades da cultura brasileira num esforço coletivo de conscientização sobre os impactos devastadores das apostas online no país.

O estopim emocional da campanha foi a história trágica do caminhoneiro Rael Evangelista, que enviou uma última mensagem à mulher e aos três filhos antes de tirar a própria vida, em outubro, após perder R$ 10 mil no Jogo do Tigrinho. O desespero de Rael, ocorrido em Jardim do Seridó, no Rio Grande do Norte, foi publicado nas redes sociais pelo movimento e tornou-se o símbolo de uma crise que aflige milhões de brasileiros.

O nome da campanha faz referência ao popular jogo Fortune Tiger, e o ato de “dar block” simboliza a recusa ao consumo dessas plataformas. O slogan adotado é direto e provocativo: “De que lado da influência você está?” — uma pergunta dirigida especialmente a criadores de conteúdo e celebridades que monetizam a promoção de casas de apostas.

Uma coalizão de peso. Entre os participantes da iniciativa estão os cantores Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Djavan, Baco Exu do Blues e Emicida, além das atrizes Marieta Severo, Julia Lemmertz, Letícia Sabatella, Camila Pitanga, Luisa Arraes, Alinne Moraes e Cláudia Abreu. A repercussão foi imediata: após a postagem de um vídeo na noite de 2 de junho, a página do grupo no Instagram pulou de 16 mil para mais de 50 mil seguidores em apenas 15 horas.  Até o dia 8 de junho, mais de 27.800 pessoas haviam assinado o abaixo-assinado online da campanha.

Os números de uma tragédia nacional. A campanha não é alarmismo vazio. Os dados que a sustentam são estarrecedores. Segundo dados do CNC e Lenad divulgados pela 342 Artes, 1,8 milhão de brasileiros enfrentam problemas financeiros diretamente relacionados às apostas.  O movimento aponta ainda que 57% dos brasileiros endividados afirmam que suas dificuldades financeiras começaram após o envolvimento com plataformas de apostas online. O risco de suicídio é 15 vezes maior entre jogadores compulsivos — e bilhões são movimentados enquanto famílias inteiras comprometem sua subsistência, incluindo beneficiários de programas sociais.

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No campo econômico, o cenário é igualmente grave. Os cassinos online representam 60% do faturamento das casas de apostas no Brasil. No mercado ilegal, essa fatia sobe para 72% de um universo que movimentou R$ 14 bilhões em 2025.

O Estado patina enquanto o algoritmo avança. E é aqui que a análise precisa ir além do aplauso fácil à iniciativa artística. A campanha “Block no Tigrinho” é legítima, necessária e emocionalmente poderosa. Mas ela expõe, por contraste, uma falha estrutural que nenhum vídeo consegue suprir: a morosidade do Estado brasileiro na regulação efetiva do setor.

O Ministério da Fazenda, por meio da Secretaria de Prêmios e Apostas, trabalha com a projeção técnica de publicar ainda este ano o arcabouço normativo que vai disciplinar as empresas fornecedoras e certificadoras desse elo da cadeia de jogos. “Ainda este ano” — uma promessa que soa irresponsável diante de cada novo Rael Evangelista que o país perde silenciosamente.

A PG Soft, empresa de Malta responsável pelo desenvolvimento do Fortune Tiger, não respondeu aos contatos feitos pela imprensa desde o início de junho. Uma empresa estrangeira que lucra com a destruição de famílias brasileiras e sequer se digna a responder à imprensa. Onde está a reciprocidade do poder público?

A hipocrisia do mercado regulado.

Há ainda um ponto incômodo que a euforia da campanha tende a obscurecer. As bets licenciadas passaram a cobrar do governo maior fiscalização e regras rígidas sobre o fornecimento de caça-níqueis eletrônicos como o Fortune Tiger para sites clandestinos. Ou seja: parte do coro que hoje pede regulação mais dura é formado por operadoras legalizadas que têm interesse econômico direto em eliminar a concorrência ilegal — não necessariamente em proteger o cidadão.

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A estratégia defendida pelo Instituto Brasileiro de Jogo Responsável consiste em estrangular o modelo de negócios das plataformas ilícitas, atacando a cadeia terceirizada de suprimentos tecnológicos, uma vez que os operadores clandestinos dependem criticamente de software houses internacionais para rodar os jogos e de intermediários financeiros para processar pagamentos. O discurso é técnico e razoável. Mas convém lembrar que as bets legalizadas também veiculam publicidade agressiva, também criam dependência e também drenam a renda das famílias mais vulneráveis — apenas dentro das regras do jogo.

O que a campanha acerta — e o que ainda falta? A proposta da iniciativa é fazer um alerta geral ao que considera uma “epidemia” de bets e plataformas de apostas no Brasil que estão “criando vício, sofrimento e dívidas”. Nesse ponto, o diagnóstico é preciso. O problema não é apenas o mercado ilegal: é a normalização cultural das apostas, o bombardeio publicitário em transmissões esportivas, a cumplicidade de influenciadores que simulam ganhos com “contas demo” para atrair seguidores à ruína financeira.

Um dos principais alvos da mobilização é exatamente a atuação de criadores de conteúdo que divulgam plataformas de apostas para milhões de seguidores — alguns deles usando contas demo para falsificar lucros e vender a ilusão de renda fácil. A campanha está certa ao nomear esse problema. Está certa ao usar a influência cultural como contrapeso à influência comercial predatória. Mas conscientização sem regulação é humanismo sem dentes.

O que o Brasil precisa não é apenas de artistas corajosos — que os tem, felizmente. Precisa de um Estado que pare de postergar, de um Congresso que legisle com seriedade sobre saúde pública digital e de uma fiscalização que alcance tanto o cassino clandestino hospedado em Malta quanto a bet licenciada que anuncia no intervalo do jogo do seu time.

Até lá, Rael Evangelista não será o último?

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