Escândalo Master/BRB figura nos autos: tentativa de amordaçar jornalistas usando métodos criminosos
Os autos da investigação relacionada ao caso Master/BRB vão muito além de contratos, balanços, operações financeiras e documentos bancários. O conjunto probatório reunido pela Polícia Federal também reúne milhares de mensagens, arquivos digitais, fotografias, vídeos e conversas extraídos por meio de perícia dos aparelhos eletrônicos apreendidos durante as investigações.
A caça, na tentativa de enquadrar a jornalista Malú Gaspar e outros, deixou revelados, nos diálogos extraídos dos celulares de Daniel Vorcaro e do empresário Thiago Miranda, métodos ardilosos para amordaçar a jornalista. Esse material, incorporado ao processo judicial, permite acompanhar, quase em tempo real, os bastidores das comunicações atribuídas aos investigados. São diálogos preservados pela perícia, organizados cronologicamente e juntados aos autos, formando um acervo robusto com informações inflamáveis.
É nesse universo documental que um nome passa a aparecer com frequência: o da jornalista Malú Gaspar.
Ao longo das conversas atribuídas ao banqueiro Daniel Vorcaro e ao empresário Thiago Miranda, a colunista de O GLOBO é mencionada repetidas vezes. Reportagens são comentadas quase em tempo real. Perguntas encaminhadas pela equipe da jornalista circulam entre os interlocutores. Há referências a documentos identificados com seu nome, avaliações sobre sua cobertura e discussões sobre possíveis estratégias de comunicação diante das reportagens que vinham sendo produzidas, desfavoráveis ao interesse do banqueiro.
Nada disso decorre de relatos de terceiros. São registros que, segundo os próprios autos, foram extraídos dos aparelhos eletrônicos apreendidos, submetidos à perícia técnica da PF e incorporados ao processo investigativo.
A sequência cronológica dessas mensagens revela que a cobertura do caso era acompanhada de forma permanente pelos interlocutores. O material mostra conversas sobre notícias já publicadas, reportagens em preparação, contatos feitos por integrantes da equipe da jornalista e avaliações sobre os possíveis desdobramentos da cobertura, além de insinuações envolvendo o nome do também banqueiro André Esteves.
Em um dos primeiros registros, Daniel Vorcaro demonstra preocupação com a continuidade da apuração. “Agora tenho que frear a Malu Gaspar”, escreve. Poucos segundos depois, reforça: “É quem vai dar trabalho próximos dois dias.”

Thiago Miranda responde informando que conhecia pessoas do círculo da jornalista. “O namorado dela é amigo de uma amiga minha.” Em seguida, acrescenta: “Vamos ver o que ela vai te questionar.”

As conversas continuam registrando o avanço da cobertura.

Após uma reportagem publicada, Daniel Vorcaro comenta: “Vamos ter que tentar pegar algo dessa mulher no pessoal.”
A resposta de Thiago Miranda é imediata: “Exatamente. Ela joga baixo. Vou revirar a vida dela.”

Logo depois, acrescenta: “Alguma coisa vamos achar.”
Mais adiante, as mensagens registram novas atualizações sobre esse levantamento.
“Meu time está atrás. Precisamos achar algo.”
Em seguida:
“Cheguei a processos dela de 1992, por exemplo.”

E conclui:

“Nem multa na CNH dela encontrei.”
Outro trecho dos autos demonstra que a cobertura da jornalista permanecia no centro das preocupações dos interlocutores.
“Malu vem batendo nisso.”

Na sequência dessa mensagem, circula, entre os próprios interlocutores, um resumo dos principais questionamentos levantados pela jornalista sobre a operação envolvendo o Banco Master e o BRB, incluindo riscos financeiros, transparência da negociação, benefícios da operação e aspectos regulatórios.
A devassa na vida da jornalista foi tão grande que salta ao olhos o criminoso pente fino na vida financeira da colunista.

E segue;

Para terminar numa conclusão cristalina; “realmente meu amigo, não tem absolutamente NADA.”

Mas o monitoramento continua…

Sem conseguir “parar” a jornalista, eis que surge a brilhante ideia, contratar a colunista.





Entre os arquivos apreendidos pela Polícia Federal, aparece um documento identificado como “Carta Proposta Malu Gaspar”.

Vale lembrar que esse modus operandi da Orcrim terá um capítulo na série, mostrando a atuação de personagens como Flávio Carneiro e Daniel Vorcaro na construção de um império midiático, bancado com o dinheiro do falido Banco Master.
As mensagens seguintes indicam novas conversas sobre esse tema…

…e acontece o drible do ano.

“Marquei outro papo com ela às 16h.”
Depois:
“Falei com ela.”
E ainda:
“Não vou formalizar nada por WhatsApp.”
Os diálogos prosseguem até o fim de abril e as tratativas com a jornalista irritam o banqueiro.


Em 28 de abril, Daniel Vorcaro pergunta:
“Vc deu o prazo, Malu?”

Thiago Miranda responde:
“Não. Falei nada com eles.”
Na mesma sequência, afirma:
“A Malu eu tenho certeza que não desconfia absolutamente de nada.”
Poucos instantes depois, surge uma mensagem identificada como proveniente da equipe da jornalista:
“Oi, Guilherme, boa tarde. Tudo bem? Aqui é o Johanns Eller, da coluna da Malu Gaspar, no Globo.”
Na sequência, é encaminhado o pedido de posicionamento para uma reportagem sobre investigações envolvendo o Banco Master.
Daniel Vorcaro reage:
“Olha que filha da puta.”
Thiago Miranda responde:
“Que FDP. Ela não para.”
E pergunta:
“Até onde ela quer ir?”

Daniel Vorcaro encerra a sequência com uma frase que também consta das mensagens incorporadas aos autos:
“Quer sangrar enquanto houver sangue.”
























