Osmar Dias Pereira foi alvo de busca e apreensão em operação que investiga contratos superiores a R$ 100 milhões; mesmo assim, prefeito Cassiano mantém secretário no cargo e evita explicar decisão
O silêncio do prefeito de Três Lagoas, Dr. Cassiano (PP), diante de uma operação do Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) começa a cobrar um preço político: o município está diante de uma investigação que aponta para possíveis irregularidades milionárias em contratos públicos, um secretário da própria administração foi alvo de mandado de busca e apreensão e, ainda assim, a resposta do Executivo é manter tudo como está.
O secretário de Infraestrutura, Transporte e Trânsito, Osmar Dias Pereira, foi um dos alvos da Operação Máquinas de Areia, deflagrada na quinta-feira. O Gecoc cumpriu 19 mandados de busca e apreensão em Três Lagoas e outros pontos da região, incluindo a Secretaria de Infraestrutura e a residência do secretário, em Castilho.
Apesar da gravidade da operação, Osmar permanece oficialmente no cargo.
E é justamente aí que surge uma das principais perguntas que a administração municipal precisa responder: por que manter no comando de uma das principais secretarias do município um secretário que foi alvo de uma investigação que apura possíveis desvios em contratos públicos da própria área?
Não se trata de condenar ninguém antecipadamente. Trata-se de gestão, transparência e responsabilidade administrativa.
O prefeito foi procurado pela reportagem para explicar por que decidiu manter Osmar no cargo e quais providências seriam adotadas diante da operação. Não respondeu.
Na quinta-feira, a Prefeitura limitou-se a informar que ainda não sabia o motivo da operação e que se manifestaria posteriormente, após ter acesso às informações.
A justificativa, porém, deixa uma lacuna evidente: se a operação atingiu diretamente uma secretaria da administração e um secretário municipal, quem está acompanhando internamente o caso e quais medidas de cautela foram adotadas?
SECRETÁRIO ATRAVESSOU DUAS GESTÕES
Osmar Dias está à frente da Secretaria de Infraestrutura, Transporte e Trânsito desde 1º de abril de 2022, quando o município ainda era administrado por Ângelo Guerreiro.
Antes disso, ocupava o cargo de diretor de Serviços Públicos.
Com a eleição de Cassiano, Osmar não apenas permaneceu na administração como continuou comandando uma das áreas mais estratégicas do município.
Agora, o secretário aparece entre os alvos de uma operação que investiga justamente contratos relacionados à infraestrutura, locação de máquinas, caminhões, veículos e equipamentos.
A situação cria uma pressão inevitável sobre o prefeito.
Se Cassiano decidiu manter o secretário, precisa explicar publicamente quais elementos justificaram essa escolha.
Se, por outro lado, a administração entende que é prudente aguardar o avanço da investigação, também precisa explicar por que não adotou sequer um afastamento cautelar.
VEREADOR COBRA AFASTAMENTO
A cobrança veio do vereador Davis Martinelli, que afirma ter apresentado mais de uma denúncia ao Ministério Público sobre fatos relacionados ao município.
Para ele, a permanência de Osmar no cargo deveria ser revista imediatamente.
A defesa do afastamento cautelar não significa condenação antecipada. Significa, segundo o vereador, preservar a investigação, evitar qualquer possibilidade de interferência e demonstrar respeito ao dinheiro público.
“Não se trata de pré-julgamento ou condenação, mas de uma medida de transparência, prudência e respeito à investigação. Três Lagoas merece respostas”, afirmou.
É uma cobrança que coloca o Executivo diante de uma escolha política delicada: agir preventivamente ou continuar em silêncio enquanto a investigação avança.
CONTRATOS PASSAM DE R$ 100 MILHÕES
A dimensão financeira da investigação aumenta ainda mais a pressão sobre a Prefeitura.
Segundo o Gecoc, a Operação Máquinas de Areia é um desdobramento das investigações da Operação Cascalho de Areia, deflagrada anteriormente.
Os investigadores apontam que o esquema teria alcançado também a região do Bolsão e envolveria quatro empresas com nomes diferentes, mas que teriam o mesmo administrador.
Um dos exemplos citados é a MS Brasil. Segundo as informações divulgadas sobre a investigação, a empresa tinha contratos de aproximadamente R$ 3 milhões em 2022, valor que teria chegado a R$ 18 milhões em 2024.
Os contratos envolviam aluguel de máquinas, caminhões, ônibus e veículos, além de combustível e serviços diversos, incluindo alimentação de trabalhadores.
Entre os alvos está o empresário André Luiz dos Santos, conhecido como André Patrola, proprietário da empreiteira ALS. A empresa Engenex, de propriedade de Edcarlos Jesus da Silva, também foi alvo da operação.
Segundo o Ministério Público, o grupo investigado teria atuado para fraudar a execução de contratos de locação e fornecimento de veículos, máquinas e equipamentos pesados, além de contratos de infraestrutura relacionados ao revestimento primário.
DINHEIRO PÚBLICO SOB SUSPEITA
O dado mais grave divulgado pelo Gecoc é o volume financeiro dos contratos.
Segundo o Ministério Público, entre 2018 e 2026, contratos e aditivos ultrapassaram R$ 100 milhões.
Ainda de acordo com o órgão, as evidências encontradas apontariam para pagamentos públicos que não corresponderiam aos serviços efetivamente prestados.
A suspeita, segundo o Gecoc, seria de utilização dos contratos para possibilitar desvio de dinheiro público e enriquecimento ilícito, provocando prejuízo à população.
São acusações que ainda serão investigadas e deverão ser submetidas ao devido processo legal. Mas a dimensão dos valores torna difícil aceitar que o poder público simplesmente espere a poeira baixar.
Não são alguns milhares de reais. São mais de R$ 100 milhões em contratos e aditivos sob investigação.
E, no centro administrativo de parte desses contratos, está justamente a secretaria comandada por um servidor que agora foi alvo de busca e apreensão.
O SILÊNCIO TAMBÉM É UMA RESPOSTA — MAS NÃO BASTA
Cassiano assumiu a Prefeitura com a promessa de administrar Três Lagoas com eficiência e responsabilidade.
Agora, diante de uma operação que atinge diretamente uma das principais estruturas da administração, o prefeito precisa mostrar que o compromisso com a transparência não termina quando a investigação chega à porta da Prefeitura.
Manter o secretário no cargo é uma decisão política. Permanecer em silêncio também.
O prefeito pode até alegar que não tem informações suficientes para fazer uma acusação ou tomar uma decisão definitiva. Isso é compreensível.
Mas existe uma diferença entre não prejulgar um investigado e não adotar medidas administrativas cautelares diante de uma investigação de tamanha proporção.
A população de Três Lagoas tem o direito de saber se o prefeito confia integralmente no secretário, se determinou uma apuração interna, se pretende afastá-lo temporariamente ou se simplesmente decidiu esperar que o caso desapareça do noticiário.
Enquanto isso não for explicado, uma pergunta continuará no ar:
Se a polícia já esteve na secretaria e na casa do secretário, por que o prefeito ainda não veio a público explicar o que está acontecendo dentro da própria administração?
A investigação precisa seguir seu curso. Os investigados têm direito à defesa e à presunção de inocência.
Mas a Prefeitura também tem uma obrigação: dar respostas à população e proteger, acima de qualquer nome, o dinheiro público de Três Lagoas.




















