Investigação aponta suposto esquema envolvendo compra e revenda de grãos, empréstimos milionários, aeronave e empresas usadas para conquistar a confiança da vítima
A Polícia Civil de Comodoro, em Mato Grosso, concluiu a investigação da Operação Agro Fantasma e indiciou o ex-deputado estadual de Mato Grosso do Sul e candidato a vice-governador, Sérgio Pereira Assis, o filho dele, Mário Sérgio Cometki, e os empresários Pedro Henrique Cardoso e Wanderley Soares Barboza Júnior pelos crimes de estelionato e associação criminosa.
Segundo o relatório final, os quatro são apontados como envolvidos em um suposto esquema que teria provocado um prejuízo de R$ 57,7 milhões ao produtor rural Silvano dos Santos. Mário Sérgio e Pedro Henrique também foram indiciados por fraude processual.
A investigação foi concluída no dia 4 de agosto, meses após a deflagração da Operação Agro Fantasma, em 4 de março. O inquérito foi encaminhado ao Ministério Público de Mato Grosso, que poderá solicitar novas diligências ou oferecer denúncia à Justiça.
Golpe teria começado com pequenos negócios
De acordo com a investigação, Mário Sérgio e Pedro Henrique teriam conquistado a confiança do produtor por meio de negócios de menor valor, nos quais os pagamentos eram realizados normalmente.
Ainda segundo a polícia, os investigados ostentavam sinais de elevado poder econômico, incluindo o aluguel de aeronaves, utilização de veículos de luxo e relógios de alto valor.
A estratégia teria permitido a ampliação das operações comerciais até que o produtor passasse a assumir compromissos financeiros em seu próprio nome.
O ex-deputado Sérgio Assis teria entrado no negócio posteriormente como uma espécie de garantidor. Conforme depoimento citado no inquérito, ele teria afirmado estar “por trás dos meninos” e se comprometido a assumir eventuais dívidas.
A investigação aponta ainda que Assis teria mencionado possuir fazendas em três estados e mais de 300 funcionários para reforçar a imagem de capacidade financeira.
Produtor contraiu empréstimo de R$ 16 milhões
Segundo a Polícia Civil, os empresários convenceram Silvano a adquirir grãos de outros produtores rurais em seu próprio nome, sob a promessa de que as obrigações seriam honradas pelo grupo.
Com o crescimento das dívidas, entretanto, começaram os atrasos e os calotes.
O produtor teria sido obrigado a contratar um empréstimo de aproximadamente R$ 16 milhões para quitar parte dos compromissos assumidos.
Outro negócio envolvendo uma aeronave também terminou em prejuízo. Conforme o relatório policial, uma aeronave foi vendida ao grupo por R$ 5,8 milhões, mas apenas R$ 2,1 milhões teriam sido pagos. O débito relacionado ao negócio chegou a R$ 3,7 milhões.
A empresa Imaculada Agronegócio também aparece como peça central da investigação. Segundo a polícia, a companhia comprava soja e milho e posteriormente revendia os produtos por valores inferiores aos preços pagos na aquisição.
R$ 81,6 milhões movimentados
O relatório final aponta que, entre negociações envolvendo grãos e a aeronave, foram movimentados aproximadamente R$ 81,685 milhões.
Desse total, o grupo teria pago R$ 23,951 milhões, deixando um prejuízo calculado em R$ 57,734 milhões ao produtor rural.
Os empresários teriam reconhecido a existência da dívida durante os depoimentos, mas alegaram que os atrasos ocorreram em razão de dificuldades financeiras.
Para o delegado Ricardo Marques Sarto, os elementos reunidos apontam para a possibilidade de um esquema estruturado.
“Os elementos coligidos apontam para indícios de um suposto esquema estruturado que alinharia a simulação de fretes a uma possível prática de estelionato”, concluiu o delegado.
Polícia aponta venda de produtos abaixo do custo
Entre os principais indícios reunidos pela investigação estão a utilização de empresas aparentemente sólidas para conquistar credibilidade, pagamentos iniciais de menor valor para estabelecer confiança e posterior ampliação das operações.
A polícia também cita o convencimento da vítima para assumir dívidas, contratação de empréstimos bancários, utilização de grãos nas operações, revenda de mercadorias abaixo do preço de aquisição, falta de pagamentos a produtores e desaparecimento de recursos.
Empresa de R$ 2 milhões e renda de R$ 3,8 mil
A investigação também levantou informações sobre a capacidade financeira de um dos envolvidos.
Segundo o relatório, Wanderley Soares Barboza Júnior, proprietário da Santa Felicidade Agro Indústria, possuía renda declarada de aproximadamente R$ 3,8 mil mensais, enquanto a empresa envolvida nas negociações apresentava movimentação estimada em R$ 2 milhões.
Para os investigadores, os dados fazem parte dos elementos que precisam ser analisados para compreender a estrutura financeira utilizada nas operações.
Suspeita de destruição de provas
A investigação também identificou indícios de possível tentativa de dificultar a ação policial.
Mário Sérgio e Pedro Henrique foram indiciados por fraude processual sob a suspeita de terem retirado documentos das empresas, destruído e queimado caixas de arquivos e apagado imagens das câmeras de segurança.
Segundo a polícia, os envolvidos teriam tomado conhecimento da operação um dia antes da deflagração, depois de descobrirem o bloqueio de aproximadamente R$ 70 milhões em contas bancárias.
A Justiça havia decretado a prisão preventiva dos quatro investigados. Entretanto, antes da operação, eles teriam tomado conhecimento das medidas e se apresentado espontaneamente. Posteriormente, as prisões preventivas foram revogadas.
Celulares ainda não foram acessados
Outro ponto da investigação é a dificuldade encontrada pela Polícia Civil para acessar os celulares apreendidos durante a operação.
Os investigadores não conseguiram obter as senhas dos aparelhos e, por isso, não tiveram acesso ao conteúdo armazenado nos dispositivos.
A quebra de sigilo fiscal também é objeto de auditoria pela Secretaria de Estado de Fazenda de Mato Grosso.
Investigados negam participação
Em depoimento, Sérgio Assis negou participação nas empresas investigadas e afirmou que sua atuação profissional estava concentrada na pecuária.
Mário Sérgio reconheceu uma dívida de aproximadamente R$ 16 milhões, mas negou participação na Imaculada Agronegócio. Segundo o relato apresentado à polícia, ele teria se afastado da empresa depois da operação.
Com a conclusão do inquérito, caberá agora ao Ministério Público de Mato Grosso analisar as provas reunidas pela Polícia Civil e decidir se oferece denúncia contra os investigados ou solicita novas diligências.
Importante: o indiciamento representa a conclusão da investigação policial sobre a existência de indícios de autoria e materialidade, mas não significa condenação. Os investigados permanecem com direito à defesa e à presunção de inocência até eventual decisão judicial definitiva.


















