Como Washington repete o roteiro do Oriente Médio em território brasileiro, desta vez, para conter Pequim
Há uma lógica que Washington repete há décadas e que, com o tempo, revela sua própria contradição. Ela começa sempre com uma justificativa nobre — democracia, segurança regional, combate ao terror, proteção de civis. E termina, invariavelmente, da mesma forma: países destruídos, populações deslocadas e um vácuo de poder que gera mais instabilidade do que havia antes da intervenção. O Afeganistão, o Iraque, a Líbia, a Síria e o Iêmen são os capítulos mais recentes dessa história. O Brasil começa a virar o próximo parágrafo. A diferença, desta vez, é que o inimigo declarado não está em Brasília. Está em Pequim.
O mesmo roteiro, cenários diferentes. Em 2001, os Estados Unidos invadiram o Afeganistão sob a justificativa de erradicar a Al-Qaeda e o regime Talibã que a abrigava. Vinte anos depois, gastaram mais de dois trilhões de dólares, deixaram 240 mil mortos e, em agosto de 2021, assistiram ao Talibã retomar o país em questão de dias. O governo que construíram colapsou sem resistência. A razão que justificou tudo aquilo — a segurança americana — ficou mais comprometida do que antes.
Em 2003, invadiram o Iraque alegando a existência de armas de destruição em massa. As armas nunca foram encontradas. O que encontraram, ao dissolver o exército e banir o partido Baath, foi o caldo cultural que originou o Estado Islâmico. Seiscentos mil a um milhão de civis mortos depois, o Iraque tornou-se uma periferia iraniana — exatamente o oposto do que Washington pretendia.
Na Líbia, em 2011, bombardearam Gaddafi fora do poder em nome da proteção de civis. O resultado foi um Estado completamente falido, dividido entre milícias, usado como corredor de tráfico humano, onde africanos são vendidos em mercados de escravos documentados pela ONU. Antes da intervenção, a Líbia tinha o maior Índice de Desenvolvimento Humano do continente africano.
Na Síria, financiaram rebeldes contra Assad. Meio milhão de mortos e treze milhões de deslocados depois, Assad ficou no poder por mais uma década. No Iêmen, forneceram armas e inteligência à coalizão saudita que deu origem à pior crise humanitária do mundo: mais de vinte e um milhões de pessoas dependem de ajuda para sobreviver em um país de trinta e três milhões de habitantes.
O padrão é sempre o mesmo: justificativa elevada, execução caótica, resultado desastroso para as populações locais, retirada americana sem solução e um terreno devastado que leva décadas para se reerguer — quando se reergueu. “A democracia que prometemos era sempre o pretexto. O que buscávamos era o controle.” — Andrew Bacevich, coronel reformado do Exército americano e historiador de Harvard.
O Brasil no tabuleiro de xadrez. Agora observemos o que Washington faz com o Brasil em 2025 e 2026, e façamos a pergunta que a imprensa mainstream raramente formula: por quê?
A administração Trump impôs tarifas de 50% sobre exportações brasileiras — café, carne, açúcar. A justificativa oficial foi de práticas comerciais desleais. O detalhe que essa narrativa omite é que os Estados Unidos acumularam superávit comercial de mais de 410 bilhões de dólares com o Brasil nos últimos quinze anos. Não havia desequilíbrio real a corrigir. O que havia era uma conta política a cobrar: o julgamento de Jair Bolsonaro, aliado de Trump, pelo Supremo Tribunal Federal do Brasil.
Simultaneamente, o Departamento de Estado, sob o secretário Marco Rubio, classificou o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho como organizações terroristas globais — colocando duas facções criminosas brasileiras na mesma lista da Al-Qaeda, do Hezbollah e do Estado Islâmico. A justificativa: ameaça à segurança regional.
Mas basta substituir os nomes e o cenário muda de cara. Quando os EUA classificaram o Tren de Aragua venezuelano como terrorista, o que se seguiu foi a Operação Southern Spear: porta-aviões nuclear, caças em Porto Rico, drones MQ-9 Reaper e dez mil tropas. A classificação de terrorismo não é um ato jurídico. É um ato de guerra em câmara lenta.
A China como razão real. Para entender o Brasil nesse contexto, é preciso ler os documentos que Washington raramente publica em manchetes. A National Security Strategy de novembro de 2025 e a National Defense Strategy de janeiro de 2026 são explícitas: o objetivo estratégico americano na América Latina é remover a influência da China do continente.
E a presença chinesa no Brasil é considerável. A China é o maior parceiro comercial do Brasil há mais de uma década. Investe em infraestrutura portuária, energia, telecomunicações e logística. O Brasil assina acordos com o BRICS, aprofunda relações Sul-Sul e resiste ao alinhamento automático com Washington que caracterizou os anos Bolsonaro.
Nesse cenário, as tarifas não são política comercial. São pressão geopolítica. A classificação do PCC e do CV como terroristas não é segurança pública. É o estabelecimento de um precedente que, se seguir o padrão colombiano, venezuelano e equatoriano, pode abrir caminho para presença militar americana em território brasileiro sob a bandeira do narcoterrorismo.
O Brasil, nessa lógica, não é o alvo. É o chicote. A China é quem se quer atingir. Washington não pune o Brasil por ser perigoso. Pune-o por ser estratégico — e por ter escolhido não se ajoelhar.
O paradoxo que ninguém quer nomear. Aqui reside o paradoxo histórico que este artigo propõe contemplar.
Os Estados Unidos invadiram o Afeganistão dizendo querer levar democracia. Deixaram o Talibã. Invadiram o Iraque dizendo querer estabilidade. Criaram o ISIS. Intervieram na Líbia dizendo querer salvar civis. Produziram o colapso de Estado mais completo do Norte da África. Em cada caso, a justificativa humanitária ou de segurança serviu como embalagem para interesses geopolíticos mais profundos.
Agora, os mesmos Estados Unidos que destruíram esses países alegando querer a paz, taxam o Brasil — que não os ameaça militarmente, que tem superávit comercial favorável a eles, que está em paz com seus vizinhos — porque um aliado político de seu presidente está sendo julgado por tentar dar um golpe de Estado. E classificam organizações criminosas brasileiras como terroristas, usando o mesmo manual que antecedeu operações militares em outros países latino-americanos.
A incoerência não é acidental. É estrutural. Como demonstrou Andrew Bacevich ao longo de uma vida de pesquisa, a política externa americana não é guiada por princípios. É guiada por interesses — e esses interesses raramente coincidem com os das populações que são atingidas por eles.
O que diferencia o Brasil do Iraque, da Líbia ou da Síria não é o tipo de pressão que Washington exerce. É o fato de que o Brasil tem instituições, tem uma economia de peso, tem um governo que diz não vai aceitar ‘medidas arbitrárias como pretexto para atacar nossa soberania’. E tem eleições em 2026 que Washington, segundo analistas, já planeja influenciar em favor da extrema direita local.
O chicote e a mão que o segura. Há uma diferença entre ser alvo de uma potência e ser instrumento dela. O Brasil, neste momento, está sendo usado como instrumento — um meio de pressão cujo destinatário final está a dez mil quilômetros de Brasília, em Pequim.
As tarifas sobre o café e o boi brasileiro não vão enriquecer o trabalhador americano. A classificação do PCC e do CV como terroristas não vai proteger nenhuma cidade americana. O que essas medidas fazem é sinalizar ao mundo — e especialmente aos parceiros do Sul Global — que o custo de se aproximar da China é alto. Que Washington está disposta a usar qualquer ferramenta, por mais desproporcional que seja, para manter sua hegemonia hemisférica.
O problema é que esse roteiro já foi executado antes. No Afeganistão. No Iraque. Na Líbia. Na Síria. No Iêmen. E em todos esses casos, o chicote não acertou quem Washington queria atingir. Acertou as populações que tinham ainda menos culpa do que o Brasil. A história, como sempre, cobra seu preço. A questão é quem paga a conta.























