O Banco de Brasília (BRB) chegou nesta quarta-feira (5) ao fim do prazo de 180 dias estabelecido para executar as principais medidas de seu plano de recomposição patrimonial apresentado ao Banco Central. A estratégia foi elaborada no início de 2026 como resposta à deterioração financeira provocada pelas operações realizadas com o Banco Master, mas as iniciativas centrais ainda não foram concluídas, ampliando as incertezas sobre a situação da instituição.
O plano previa ações destinadas a reforçar o patrimônio do banco e recuperar sua capacidade financeira após a identificação de um déficit bilionário decorrente de investimentos e operações de crédito realizados entre 2024 e 2025. As transações, que somaram cerca de R$ 30 bilhões, tornaram-se alvo de investigações da Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero.
Segundo as investigações, parte significativa dos ativos adquiridos pelo BRB estaria vinculada a aproximadamente R$ 8,8 bilhões em créditos considerados de difícil recuperação ou sem lastro suficiente, comprometendo a saúde financeira da instituição.
Medidas seguem sem conclusão
Entre as principais ações previstas no plano de recuperação está a contratação de um empréstimo de R$ 6,6 bilhões, cuja negociação foi estruturada no âmbito de um acordo homologado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Apesar disso, a operação ainda depende da participação e aprovação de instituições financeiras públicas e privadas, etapa que permanece sem definição.
Outra alternativa considerada pelo banco era a negociação de aproximadamente R$ 15 bilhões em ativos ligados ao Banco Master com o fundo Quadra Capital. O acordo, entretanto, foi encerrado em junho, eliminando uma das principais possibilidades de liquidez previstas pela administração.
Sem essas duas operações, o plano de recuperação patrimonial permanece incompleto, justamente no encerramento do prazo inicialmente informado ao Banco Central.
Falta de balanços aumenta incertezas
Outro fator que amplia as dúvidas sobre a real situação financeira do BRB é a ausência da divulgação de demonstrações financeiras consolidadas desde novembro de 2025.
Sem os balanços atualizados, investidores, órgãos de controle e o mercado financeiro não conseguem mensurar com precisão o tamanho do déficit patrimonial nem avaliar os efeitos das medidas adotadas até o momento.
Nos últimos meses, o banco anunciou providências jurídicas, incluindo ações de responsabilização contra ex-administradores e medidas de bloqueio de bens de investigados ligados ao Banco Master. Apesar dessas iniciativas, ainda não há estimativa oficial sobre o impacto financeiro dessas medidas na recuperação da instituição.
Crise atingiu a antiga direção
A crise também provocou mudanças na administração do banco. Em abril deste ano, o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, foi preso durante as investigações da Operação Compliance Zero. Ele é acusado de autorizar operações consideradas irregulares e de descumprir normas de governança e gestão de riscos.
As apurações continuam em andamento e envolvem antigos dirigentes do banco e empresários ligados ao Banco Master.
Empréstimo pode gerar discussão jurídica
Além do desafio financeiro, a operação de crédito de R$ 6,6 bilhões ocorre em um cenário de debate jurídico.
Especialistas em direito público apontam que a contratação de empréstimos nos últimos meses de mandato pode ser questionada com base nas restrições previstas na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), especialmente quanto à criação de obrigações financeiras que possam ser transferidas para a administração seguinte sem a correspondente disponibilidade de caixa.
Por outro lado, a Procuradoria-Geral do Distrito Federal sustenta que o acordo firmado perante o Supremo Tribunal Federal confere segurança jurídica à operação, entendimento que poderá ser submetido à apreciação do Poder Judiciário caso haja eventual contestação.
Banco afirma manter diálogo com o Banco Central
Em nota, o BRB informou que mantém diálogo permanente com o Banco Central e afirmou permanecer confiante na conclusão das medidas de recomposição patrimonial previstas em seu plano de recuperação.
A instituição acrescentou que as negociações relativas ao empréstimo continuam em andamento, mas não informou se houve solicitação de prorrogação do prazo de 180 dias encerrado nesta quarta-feira.
O Banco Central, por sua vez, não comentou a situação do banco.




















