A crise sanitária que atinge Dourados e coloca o município como epicentro da epidemia de chikungunya em Mato Grosso do Sul levanta questionamentos graves sobre a condução da gestão municipal. Longe de ser um evento imprevisível, o cenário atual é visto por especialistas e autoridades como uma tragédia anunciada marcada por falhas na prevenção e ausência de ações efetivas.
Informações divulgadas indicam que a administração do prefeito Marçal Filho foi alertada ainda no ano passado sobre o risco iminente de avanço da doença. Mesmo diante dos avisos, não houve resposta proporcional à gravidade da situação. O resultado é uma escalada acelerada de casos, internações e mortes, que expõe a fragilidade da política de combate ao mosquito Aedes aegypti.
Dados apresentados pela própria Secretaria Municipal de Saúde à Câmara de Vereadores revelam um ponto crítico: o planejamento previa quatro ciclos anuais de visitas preventivas em 80% dos imóveis da cidade — estratégia básica e reconhecida no controle da dengue, chikungunya e zika. Contudo, o que se observou foi um colapso completo da execução. Nos últimos três quadrimestres, o resultado foi praticamente nulo. Ou seja, a prevenção não saiu do papel.
Enquanto as ações falhavam, os números disparavam. Dourados confirmou a sexta morte por chikungunya, concentrando 75% dos óbitos registrados neste ano em Mato Grosso do Sul. A vítima mais recente foi um homem indígena de 55 anos, sem comorbidades. Outras cinco mortes também ocorreram entre indígenas, grupo que inicialmente foi o mais afetado pela doença.
A situação é alarmante: somente em 2026, já são 1.572 casos confirmados, 3.412 prováveis e 2.449 em investigação. Ao todo, o município soma 4.630 notificações. Além disso, 29 pessoas permanecem hospitalizadas, e a taxa de positividade chega a 72%, indicador que reforça a disseminação intensa do vírus.
Especialistas apontam que a ausência de visitas domiciliares, mutirões e campanhas massivas contribuiu diretamente para o avanço da doença. A falha na prevenção, considerada a principal ferramenta de combate ao mosquito, permitiu que o surto inicialmente concentrado em aldeias indígenas se espalhasse rapidamente para a área urbana.
O cenário mais recente mostra que a epidemia já não está restrita a grupos específicos. A partir das últimas semanas, os casos passaram a predominar entre a população não indígena, evidenciando que a transmissão se tornou comunitária e generalizada. Esse avanço amplia a pressão sobre a rede de saúde e aumenta o risco de novas mortes.
Diante dos dados, a gestão municipal enfrenta críticas pela demora em agir e pela ausência de medidas preventivas eficazes. Para especialistas, o custo da inação se traduz em vidas perdidas, hospitais sobrecarregados e uma crise sanitária que poderia ter sido mitigada com planejamento e execução adequada.
Com duas mortes ainda em investigação e a circulação do vírus em alta, a população cobra respostas rápidas e ações concretas. A epidemia escancara não apenas a fragilidade do sistema de prevenção, mas também a necessidade urgente de uma gestão mais eficiente e proativa para conter o avanço da doença.





















