A situação da Universidade do Distrito Federal ganhou novos contornos de crise após uma audiência pública realizada na Comissão de Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados, no último dia 19 de maio. Professores, estudantes, parlamentares e representantes da gestão universitária denunciaram problemas estruturais, evasão estudantil em massa e um controverso contrato de locação que pode custar cerca de R$ 110 milhões aos cofres públicos em cinco anos.
O debate revelou um cenário que integrantes da comunidade acadêmica passaram a chamar de “desabrigamento acadêmico”, marcado pela ausência de campus próprios, precarização das condições de ensino e insegurança sobre o futuro institucional da universidade pública criada para ampliar o acesso ao ensino superior no Distrito Federal.
Contrato de aluguel de R$ 110 milhões gera críticas
O principal foco das críticas é o contrato de aluguel firmado para utilização de um prédio do IESB, em Ceilândia. Segundo parlamentares e representantes estudantis, o custo estimado da locação pode alcançar aproximadamente R$ 110 milhões ao longo de cinco anos.
Durante a audiência, o deputado federal Rodrigo Rollemberg afirmou que o valor poderia ser direcionado à construção de estruturas permanentes da universidade em regiões que ainda carecem de ensino superior público. O parlamentar também questionou a ausência de licitação e classificou o contrato como incompatível com o interesse público.
A discussão ocorre em meio à pressão para que o Governo do Distrito Federal apresente soluções definitivas para a estrutura física da universidade, reduzindo a dependência de imóveis privados.
Evasão chega a quase 70% no período noturno
Representantes do Diretório Central Acadêmico (DCA) relataram que os problemas de infraestrutura têm impactado diretamente a permanência dos estudantes. Segundo levantamento apresentado na audiência, turmas do período noturno registram evasão próxima de 70%.
Entre os principais problemas apontados estão:
- deficiência no transporte público até o campus provisório;
- falta de iluminação e segurança nos arredores;
- dificuldade de acesso para estudantes de regiões administrativas distantes;
- incertezas sobre continuidade de cursos e organização acadêmica.
Alunos afirmam que a ausência de planejamento estrutural agravou o sentimento de instabilidade dentro da universidade, especialmente após mudanças sucessivas na gestão institucional.
Professores denunciam baixos salários e sobrecarga
A crise também afeta o corpo docente. Professores relataram dificuldades para permanência na carreira devido aos baixos salários e à sobrecarga de trabalho.
Segundo informações apresentadas pela representante docente Suellen Gonçalves, professores doutores da UnDF recebem remuneração inicial de cerca de R$ 8 mil, um dos menores vencimentos da categoria no Distrito Federal.
Além disso, docentes afirmam que a carga de 20 horas semanais exclusivamente em sala de aula inviabiliza atividades de pesquisa, extensão universitária e produção científica, pilares fundamentais para consolidação de uma universidade pública.
O cenário, segundo os representantes, já provoca evasão de professores aprovados em concursos públicos, incluindo casos de desistência antes mesmo da posse definitiva.
Gestão promete reavaliar contrato e buscar prédios públicos
Diante da pressão política e acadêmica, a reitora em exercício, Fernanda Marsaro, declarou que a atual gestão pretende priorizar o diálogo com estudantes e professores. Entre as medidas anunciadas está a reavaliação do contrato de locação em Ceilândia, com objetivo de adequar custos e analisar alternativas.
A Terracap também deverá apresentar um levantamento de imóveis públicos disponíveis em Ceilândia, Samambaia e Taguatinga que possam ser utilizados pela universidade.
Parlamentares defendem que a prioridade seja a construção de campus próprios e permanentes, evitando novos contratos milionários de aluguel.
Câmara e MEC devem acompanhar situação
A deputada federal Erika Kokay informou que a comissão da Câmara realizará uma diligência oficial ao prédio alugado pela universidade. A parlamentar também anunciou articulações junto ao Ministério da Educação para discutir apoio institucional e financeiro à UnDF.
Outro ponto levantado durante a audiência foi a cobrança de mais de R$ 200 milhões que, segundo parlamentares, ainda seriam devidos pelo GDF à universidade.
A expectativa agora é que o tema avance nas discussões orçamentárias de 2027, com apresentação de emendas parlamentares destinadas à construção definitiva dos campus da universidade pública do Distrito Federal.




















