A tentativa de uma mulher de retomar o próprio emprego escancara um cenário preocupante de influência política, possível abuso de poder e falta de amparo institucional às vítimas de violência doméstica em Campo Grande. Em mandado de segurança, a ex-servidora comissionada da Câmara Municipal acusa o presidente da Casa, Epaminondas Vicente Silva Neto, o Papy (PSDB), de agir em favor do agressor e promover sua exoneração como forma de retaliação.
Segundo a ação, a demissão não teria qualquer relação com reestruturação administrativa, como alegado oficialmente, mas sim com pressão direta do ex-presidente da Fundação Municipal de Esportes, Sandro Benites, inconformado com o fim de um relacionamento extraconjugal de seis anos. A vítima relata ter sofrido violência psicológica e física após o término e afirma que o cargo público foi usado como instrumento de chantagem e controle.
Os advogados da ex-servidora sustentam que houve uma clara interferência política: a exoneração teria sido uma resposta ao rompimento e à exposição das agressões. A denúncia vai além aponta uma suposta troca de favores entre Papy e Benites, envolvendo cargos comissionados em estruturas públicas distintas.
A narrativa desmonta a justificativa institucional apresentada pelo presidente da Câmara. De acordo com a defesa, não houve mudança estrutural que justificasse a exoneração imediata, tampouco avaliação de desempenho. O que se vê, segundo a ação, é o uso da máquina pública para atender interesses pessoais, em um caso que mistura violência doméstica, influência política e retaliação.
O episódio se agrava ao revelar a ausência de qualquer suporte à vítima. Mesmo após relatar agressões e demonstrar vulnerabilidade emocional — incluindo estresse e depressão —, a ex-servidora afirma não ter recebido apoio do poder público. Ao contrário, teria sido penalizada com a perda do emprego.
A condução do caso levanta questionamentos ainda mais amplos. Em uma cidade administrada por uma mulher e em um contexto de campanhas públicas frequentes de combate à violência contra a mulher, a prática descrita nos autos revela um abismo entre discurso e realidade. A denúncia ganha contornos ainda mais simbólicos por envolver um episódio ocorrido no período do Dia Internacional da Mulher.
Como se não bastasse, a decisão judicial inicial também gerou indignação. Mesmo diante da alegação de desemprego, a juíza responsável pelo caso determinou que a vítima apresentasse informações detalhadas sobre renda, patrimônio e atividade profissional — exigência considerada desproporcional pela defesa, diante da situação exposta.
O caso agora segue na Justiça, mas já produz efeitos políticos e sociais. Ele lança luz sobre um problema estrutural: quando autoridades públicas são acusadas de agir para proteger agressores e punir vítimas, o sistema falha em sua função mais básica — garantir proteção e justiça.
Mais do que um conflito individual, o episódio coloca em xeque a credibilidade de instituições e lideranças. E deixa uma pergunta inevitável: quando o poder público se volta contra quem deveria proteger, quem resta para defender as vítimas?




















