Campanha sob suspeita incluiu truques em obras eleitoreiras que agravam rombo financeiro e podem provocar saída de secretário
Reeleita em circunstâncias sob suspeição, que levaram o Ministério Público Eleitoral a solicitar a cassação de seu mandato, a prefeita Adriane Lopes (PP) completou três meses do segundo mandato acumulando sérios desgastes. Sua gestão, ausente dos graves problemas de Campo Grande, da saúde às finanças, entrou em um acelerado processo de reprovação popular confirmado em pesquisas de opinião pública.
A crise financeira do Município avança desde o primeiro mandato (de abril de 2022 a dezembro de 2024) e se agravou depois que eclodiram as consequências dos arranjos desesperados da prefeita para garantir a sua reeleição. Além de promessas mirabolantes, como a construção do Hospital Municipal até o final de 2025 – já elencada entre as mentiras de palanque -, Adriane recorreu a alguns truques eleitorais.
Um desses truques foi o que poderia ser classificado como “golpe do asfalto”. No ano eleitoral, diante de pesquisas que mostravam a concorrente Rose Modesto (União Brasil) liderando pesquisas sobre intenção de voto, a prefeita iniciou com grande estardalhaço algumas obras para recapeamento de ruas. Assim, revestindo as pistas com nova camada de asfalto, ela daria ao eleitor um impacto de enorme visibilidade para realçar sua gestão.
Contudo, os procedimentos técnicos, operacionais e financeiros que garantiram estas obras foram “sequestrados” de outra planilha, elaborada especificamente para realização de serviços de tapa-buracos. No linguajar técnico, as empreiteiras contratadas seriam pagas por recursos provenientes da chamada Fonte 0100. Um técnico dessas empreiteiras – cujo nome está sendo preservado – simulou um exemplo: “É como se o serviço contratado para tapa-buracos na regiões da cidade fosse transformado em obrade recapeamento na Avenida Ernesto Geisel”. É algo flagrantemente ilegal.
As empreiteiras, depois de meses sem receber, não tiveram outra saída a não ser paralisar as obras. Uma delas só pagou os trabalhadores porque recorreu às suas reservas de caixa. Ao registrar frentes de serviço paralisadas e ouvir de operários e engenheiros relatos sobre a situação, este site decidiu acompanhar de perto as providências dos órgãos fiscalizadores e as investigações aprofundadas sobre o manuseio das verbas e planilhas. Quem passa nas proximidades do Hospital São Julião, na região do Nova Lima, vê as máquinas paradas. Mais uma promessa de campanha vazia.

CAOS FINANCEIRO E GERENCIAL – O calote nas empreiteiras é apenas a ponta de um imenso iceberg de desastres financeiros, políticos e administrativos que Adriane Lopes vem colecionando. Atirada ao círculo da inadimplência, a prefeitura campo-grandense cavou um fundo abismo nesta gestão. Sem dinheiro, havia três meses não vinha pagando a Solurb, responsável pela coleta de lixo, tirando da empresa a receita com a qual seus funcionários são pagos. O consórcio, credenciado por sua solidez, conseguiu resolver o problema por conta própria.
Durante a campanha, a prefeita não conseguiu responder se tinha dinheiro em caixa para honrar as folhas de final de ano, sobretudo o 13º salário. Em dezembro, um arranjo às pressas garantiu o pagamento aos servidores: a prefeita sacou dinheiro do Fundo Municipal de Saúde, uma artimanha tipificada como “pedalada”, semelhante àquela que derrubou a presidente Dilma Roussef.
Por conta desta soma de engasgos, até aliados da prefeita começam a dar sinais vigorosos de preocupação e descontentamento. O calote que foi aplicado nas empreiteiras de tapa-buracos e pavimentação, por exemplo, deixou aborrecido o secretário de Infraestrutura, Marcelo Miglioli. Foi ele quem viabilizou o entendimento com os empresários para que fizessem os serviços e obras anunciados por Adriane.
A vitoriosa negociação, conduzida por Miglioli, foi a pedra de toque para a reeleição da prefeita. Contudo, o gosto amargo do calote atingiu os empresários e deixou Miglioli muito envergonhado, ao ver arranhado seu perfil de gestor que cumpre a palavra. Ele já teria, inclusive, redigido uma carta pedindo demissão, embora seu nome seja citado como alternativa para disputar o Senado pela coligação que apoiou Adriane.
Demissionário ou não, Miglioli não tem motivos para estar satisfeito com o encurtamento de seus voos na estratégia de gestão. É corrente, entre quem priva da intimidade do poder municipal, que depois da prefeita tudo que acontece ou vai acontecer na gestão passa por três pessoas, duas delas do círculo familiar de Adriane: o marido, deputado estadual Lídio Lopes, e a concunhada, Thelma Nogueira Lopes, secretária especial da Casa Civil. A terceira pessoa de maior influência no governo municipal seria Márcia Hokama, secretária de Finanças. Isto, se verdadeiro, atesta que Miglioli deixou de ser a bola da vez.




















