A gestão de Sérgio Longen à frente da Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul (FIEMS) voltou a ser alvo de questionamentos públicos. Desta vez, não por contratos ou recursos financeiros, mas pela forma como conduziu uma agenda institucional com representantes do Governo Federal.
Na quinta-feira (30), a deputada federal Camila Jara (PT) afirmou ter sido impedida de participar de uma reunião realizada na sede da FIEMS, em Campo Grande, que contou com a presença do secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, e do ministro dos Transportes, George Santoro.
Segundo a parlamentar, o convite para participar do encontro partiu do próprio Dario Durigan. Mesmo assim, ela afirma que foi barrada pela organização do evento ao chegar à entidade.
“É assim que eles tratam as mulheres parlamentares. Barradas no evento que elas foram convidadas pelo ministro da Fazenda. Uma instituição sexista, uma instituição machista e que não sabe dialogar com os diversos setores”, declarou Camila.
A deputada afirmou ainda que a senadora Soraya Thronicke (PSB) também teria enfrentado restrições para participar da agenda.
Se confirmada, a situação levanta questionamentos sobre os critérios adotados pela direção da FIEMS para controlar o acesso a um encontro que envolvia autoridades federais e tratava de um tema de interesse público: o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), considerado uma das principais iniciativas econômicas do governo federal para renegociação das dívidas estaduais.
Camila Jara é uma das principais representantes da base do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Mato Grosso do Sul e poderia apresentar aos empresários os impactos do programa, que permitiu a renegociação de aproximadamente R$ 7,7 bilhões da dívida do Estado com a União. Estimativas do Tesouro Nacional indicam que a medida poderá gerar economia próxima de R$ 3,2 bilhões nas próximas três décadas.
Novo desgaste em uma gestão já cercada por questionamentos
O episódio ocorre em um momento em que a administração de Sérgio Longen enfrenta sucessivas cobranças sobre transparência, governança e utilização de recursos.
Presidente da FIEMS desde 2011 e no comando da entidade até 2027, Longen passou a conviver, nos últimos meses, com uma sequência de denúncias, investigações e iniciativas parlamentares que colocaram contratos do Sistema FIEMS sob análise.
Uma das frentes envolve o anúncio do deputado estadual João Henrique Catan (Novo), que informou que pretende provocar a Polícia Federal, a Procuradoria-Geral da República e o Tribunal Regional Eleitoral para apurar um repasse de R$ 7 milhões destinado à FIEMS pelo então secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Jaime Verruck. O parlamentar questiona a finalidade dos recursos e a legalidade da operação.
Na Assembleia Legislativa, deputados da bancada do PT articulam a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar contratos firmados pela Federação. Entre os pontos que motivam a iniciativa estão procedimentos que também chamaram a atenção do Ministério Público Estadual.
Contratos milionários sob suspeita
O ambiente de pressão também foi alimentado por uma série de reportagens investigativas publicadas pelo Jornal Midiamax, que revelou questionamentos envolvendo contratos milionários de tecnologia celebrados pelo Sistema FIEMS.
As reportagens apontaram suspeitas sobre a utilização de suposto atestado de capacidade técnica falso em licitação do Senai-MS, possíveis vínculos entre empresas contratadas e pessoas ligadas ao Sistema FIEMS, além de indícios que levantaram dúvidas sobre a competitividade de alguns processos licitatórios.
Outro ponto revelado foi que a empresa Acto Soluções em Tecnologia recebeu mais de R$ 7,6 milhões em contratos entre 2021 e 2022. Segundo as reportagens, parte dos serviços posteriormente passou a ser executada por outra empresa criada por ex-integrantes da própria Acto. Também foram levantados questionamentos sobre e-mails institucionais utilizados por representantes de empresas privadas e sobre documentação técnica apresentada em certames.
Conforme registrado pelo próprio Midiamax, a FIEMS, o Senai-MS e os empresários citados foram procurados durante a série de reportagens. Parte dos envolvidos negou irregularidades, enquanto outros optaram por não se manifestar.
Acusação amplia pressão sobre a presidência
Embora a denúncia feita por Camila Jara tenha natureza distinta das demais controvérsias envolvendo a gestão da FIEMS, ela amplia o desgaste político enfrentado por Sérgio Longen.
A acusação de que parlamentares mulheres teriam sido impedidas de participar de uma agenda oficial soma-se ao ambiente de cobranças por maior transparência administrativa e institucional da entidade.
Até a publicação desta reportagem, a FIEMS não havia se manifestado publicamente sobre as declarações da deputada nem esclarecido quais critérios foram adotados para restringir o acesso ao encontro com representantes do Governo Federal. O espaço permanece aberto para manifestação da entidade e de seu presidente.





















