A recusa do presidente da Câmara Municipal de Campo Grande, Epaminondas Silva Neto, o Papy (PSDB), em convocar sessão extraordinária para barrar o reajuste abusivo e ilegal do IPTU 2026 escancarou o abismo entre o discurso político e a prática parlamentar. Ao se omitir diante da revolta popular, Papy empurra os vereadores para o centro da indignação dos eleitores e assume, de vez, o papel de escudo político da prefeita Adriane Lopes (PP).
Mesmo diante do clamor popular e do anúncio oficial feito na sexta-feira pelo presidente da Comissão Especial, vereador Rafael Tavares (PL), garantindo a convocação de sessão extraordinária para suspender o aumento acima da inflação e restaurar o desconto histórico de 20% praticado há 53 anos , Papy simplesmente recuou. O gesto soou como traição à própria palavra da Casa e à população que paga a conta.
Ao longo do dia, aliados da prefeita passaram a espalhar, nos bastidores, a versão de que a Câmara não teria competência para restaurar o desconto, classificando a medida como “inconstitucional”. O argumento não convence e expõe o descrédito do Legislativo: se vereadores não podem interferir em um aumento que penaliza diretamente o contribuinte, afinal, para que servem os 29 parlamentares que custam cerca de R$ 26 mil por mês aos cofres públicos?
De férias nos Estados Unidos, Papy oficializou o recuo em entrevista ao Campo Grande News, transferindo a responsabilidade exclusivamente para a prefeita. Segundo ele, a redução do imposto só ocorrerá se Adriane Lopes concordar. Ou seja, o presidente da Câmara abriu mão da autonomia do Legislativo e se colocou na condição de mero espectador.
“Estamos esperando a posição dela”, afirmou Papy, reforçando a submissão política. Em seguida, adotou integralmente o discurso da prefeita ao alegar suposta “dificuldade técnica” para reemitir carnês e recalcular valores, insinuando que o município poderia ficar até 60 dias sem arrecadação.
O argumento é frágil e não se sustenta na história recente. Em 2018, o então prefeito Marquinhos Trad (PDT) enfrentou situação semelhante, suspendeu o aumento abusivo da taxa do lixo, enviou projeto à Câmara e o município seguiu funcionando normalmente. Não houve colapso financeiro nem caos administrativo — apenas respeito ao contribuinte.
A decisão de Papy de não convocar a sessão extraordinária coloca os vereadores no olho do furacão ao lado da prefeita. O discurso de defesa do povo ruiu diante da primeira pressão política. Pregam responsabilidade social, mas, quando chega a hora de agir, optam pela conveniência e pela omissão.
O resultado é um só: revolta popular, descrédito da Câmara e a certeza de que o contribuinte está sozinho. Em ano pré-eleitoral, a fatura dessa demagogia será cobrada nas urnas. E não haverá férias no exterior capazes de blindar quem virou as costas para a cidade.






















