Em meio a um cenário de desequilíbrio fiscal crescente e com as contas pressionadas por gastos com pessoal, a Prefeitura de Campo Grande já prepara um novo plano de corte de despesas para 2026. Apesar de anunciar a medida como uma solução para conter o avanço da máquina pública, a gestão municipal não apresenta dados concretos sobre os reais impactos da contenção em curso e continua sem detalhar os resultados das ações já adotadas.
A confirmação do novo plano foi feita nesta quarta-feira (8) pela secretária de Fazenda, Márcia Hokama. A titular da pasta afirmou que, diferentemente das prorrogações anteriores, o próximo conjunto de medidas será incorporado diretamente ao orçamento de 2026. O atual decreto de contenção, em vigor desde março, expira em 31 de dezembro deste ano e, segundo a gestora, não será renovado em sua forma atual.
No entanto, enquanto anuncia novos cortes, a prefeitura parece repetir um padrão preocupante: adota medidas emergenciais sem apresentar diagnósticos claros sobre sua eficácia. A secretária reconheceu que não é possível mensurar quanto foi efetivamente economizado com o decreto vigente, o que levanta dúvidas sobre o planejamento e a capacidade de avaliação da gestão.
“Eu não consigo estimar por secretaria. Mas também cresceram as nossas entregas”, justificou Hokama, citando a expansão de serviços como aumento no número de escolas e contratações.
Gastos acima do limite legal
A situação fiscal da cidade se agravou após o município ultrapassar o limite de 54% da receita corrente líquida com despesas de pessoal, estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). De acordo com o relatório bimestral mais recente, os gastos chegaram a 57,73% – ou R$ 3,022 bilhões – nos últimos 12 meses. Isso representa R$ 185 milhões acima do teto legal.
A secretária apontou que a alta nas despesas se deve, em grande parte, a aumentos concedidos na gestão anterior, sobretudo na área da educação. Mas evitou entrar em detalhes, alegando não ter os percentuais exatos no momento. Ainda assim, demonstrou preocupação com o impacto de qualquer novo reajuste: “Qualquer aumentozinho que der para eles, deu 10%, sobe 17 milhões, sobe 15 milhões por mês”.
Falta de previsibilidade e transparência
Embora a gestão municipal tente passar a imagem de responsabilidade fiscal, o discurso contrasta com a prática. A falta de clareza sobre os efeitos do atual decreto, somada à admissão de aumentos em áreas estratégicas – como auditores, professores e até o teto da prefeita – enfraquece o argumento de que a contenção de gastos está sendo tratada com o rigor necessário.
Além disso, a prefeitura insiste em justificar os desequilíbrios com ações do passado, sem assumir plenamente a responsabilidade por decisões recentes, como a ampliação da estrutura de serviços e reajustes concedidos durante a atual administração.
O anúncio do novo plano, que será “contingenciado no próprio orçamento”, como afirmou Hokama, também deixa margem para interpretações: trata-se de um contingenciamento preventivo ou de mais uma resposta tardia à escalada de gastos?
Corte sem planejamento ou plano de governo?
Na prática, o município caminha para mais um ano de cortes sem apresentar um planejamento claro de modernização administrativa ou de revisão estrutural de gastos. O risco, portanto, é repetir um ciclo de contenções pontuais que não resolvem o problema de fundo: uma gestão pública inflada, sem controle efetivo de despesas e carente de transparência.
Enquanto isso, áreas essenciais podem ser penalizadas com a limitação de investimentos, sem que a sociedade tenha acesso a dados que justifiquem as decisões tomadas.
Em 2026, o que se espera da Prefeitura de Campo Grande não é apenas mais um decreto com medidas impopulares, mas um plano fiscal com metas reais, acompanhamento público e responsabilidade de gestão. Sem isso, a contenção de gastos corre o risco de ser apenas mais um improviso disfarçado de planejamento.
























