Um investimento considerado de alto risco pode provocar um rombo de cerca de R$ 7 milhões nas contas do Instituto de Previdência Social dos Servidores Municipais de Fátima do Sul (Iprefsul), colocando em alerta aposentados e pensionistas do município. A aplicação, feita em 2024, foi realizada em títulos do Banco Master após recomendação da empresa de consultoria Crédito e Mercado cujo proprietário, o empresário e advogado Cecílio Galvão, é alvo de investigação na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que apura fraudes envolvendo beneficiários do INSS.
O caso levanta questionamentos sobre a gestão dos recursos previdenciários do município de Fátima do Sul, já que o valor aplicado corresponde a cerca de 12% de todo o patrimônio do instituto, dinheiro destinado ao pagamento de aposentadorias e pensões de servidores públicos.
Aplicação em títulos sem garantia
O investimento foi feito em Letras Financeiras emitidas pelo Banco Master, instituição controlada pelo empresário Daniel Vorcaro. Diferentemente de aplicações mais tradicionais, esses títulos não contam com proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mecanismo que garante parte dos depósitos em caso de quebra de instituições financeiras.
Especialistas do mercado apontam que esse tipo de aplicação costuma oferecer maior rentabilidade justamente por carregar riscos mais elevados. No caso de Fátima do Sul, a escolha de aplicar recursos previdenciários em ativos sem garantia levanta críticas sobre a política de investimentos adotada pelo instituto.
Orientação de consultoria sob investigação
A decisão de investir partiu de recomendação da consultoria Crédito e Mercado, contratada há mais de uma década para orientar as aplicações do Iprefsul. A empresa pertence a Cecílio Galvão, que vem sendo convocado pela CPMI do INSS para prestar esclarecimentos sobre supostos repasses milionários ligados a associações investigadas por fraudes contra aposentados.
O presidente da comissão, o senador Carlos Viana, chegou a determinar a condução coercitiva do empresário após ele ignorar convocações. Galvão alegou sigilo profissional por atuar como advogado e pediu acesso prévio aos documentos da investigação.
A maioria dos pedidos foi negada pela comissão, que considerou haver tentativa de protelar o depoimento. No entanto, posteriormente o investigado conseguiu um habeas corpus no Supremo Tribunal Federal (STF), tornando facultativa sua presença.
Gestão admite risco, mas minimiza impacto
A presidente do Iprefsul, Claudete Rodrigues dos Santos, afirmou que os riscos da aplicação foram apresentados na época da decisão, mas classificou a operação como parte dos riscos comuns do mercado financeiro.
Segundo ela, o possível prejuízo não afetaria imediatamente as contas do instituto, que hoje mantém equilíbrio atuarial. Ainda assim, a declaração gerou questionamentos, já que o valor representa uma parcela significativa do patrimônio previdenciário.
“Eu sei que eu sou a presidente daqui. É meu CPF. Mas a decisão foi de todos que estavam envolvidos”, declarou ao comentar a responsabilidade pela aplicação.
A gestora também afirmou não saber quais medidas poderão ser tomadas para recompor eventual perda do investimento.
Falta de respostas e responsabilização
O episódio evidencia fragilidades na governança de fundos previdenciários municipais, frequentemente alvos de consultorias financeiras que oferecem aplicações mais rentáveis, mas com riscos elevados.
No caso de Fátima do Sul, ainda não está claro quem responderá caso o prejuízo se confirme — se a gestão do instituto, a consultoria responsável pela recomendação ou o próprio município.
O prefeito Wagner Roberto Ponsiano evitou comentar o caso, afirmando apenas que a responsabilidade pelas aplicações cabe ao instituto de previdência, apesar de ele estar ligado à estrutura administrativa da prefeitura.
Debate sobre segurança dos recursos
A situação reacende um debate recorrente em todo o país: a falta de mecanismos mais rigorosos de controle sobre os investimentos feitos por institutos de previdência municipais.
Enquanto gestores defendem a busca por maior rentabilidade para garantir o pagamento futuro de aposentadorias, especialistas alertam que o dinheiro da previdência não deveria ser exposto a operações de alto risco — especialmente quando envolve recursos que garantem a subsistência de servidores aposentados.
Sem transparência total sobre a decisão e sem um plano claro de recuperação do valor aplicado, o caso de Fátima do Sul deixa uma pergunta inevitável: quem pagará a conta se o investimento de R$ 7 milhões se transformar, de fato, em prejuízo para os aposentados.
Com informações site Midiamax





















