Enquanto diretores recebem reajustes acima da inflação e empreiteiras são privilegiadas com contratos e financiamentos, empregados acumulam perdas salariais, direitos negados e decisões judiciais ignoradas
A política adotada pela alta administração da Sanesul (Empresa de Saneamento de Mato Grosso do Sul) expõe uma contradição que beira o escândalo: fartura de recursos para a cúpula administrativa, empreiteiras e parcerias público-privadas, e absoluto desprezo pelos direitos trabalhistas de quem sustenta o funcionamento diário da empresa.
Documentos oficiais atas do Conselho de Administração, balanços financeiros, registros da Secretaria do Tesouro Nacional (STN) e decisões do Judiciário revelam um padrão de gestão que privilegia interesses do topo e do mercado, enquanto impõe sacrifícios históricos aos trabalhadores da base.
Reajustes generosos para poucos
Em 17 de dezembro de 2025, o Conselho de Administração da Sanesul aprovou reajuste anual da remuneração de diretores, conselheiros fiscais e membros do Comitê de Auditoria. O custo anual saltou de R$ 3.661.453,31 para R$ 3.874.827,00, um aumento de 5,82%.
A justificativa foi uma projeção de INPC de 5,01% para 2026. No entanto, dados públicos divulgados à época desmentem o argumento: o IPEA estimava inflação de 3,8%; a Folha de São Paulo, 4,06%; e o próprio Banco Central projetava índice inferior a 4,10%.
Mesmo diante de estimativas mais conservadoras, a direção da estatal garantiu reajustes acima da média, repetindo uma prática recorrente e completamente dissociada da realidade enfrentada pelos trabalhadores.
Novo plano de cargos: retrocesso histórico
Enquanto a cúpula é blindada, os empregados da Sanesul enfrentam um dos maiores retrocessos da história da empresa. Em 2025, foi implantado um novo Plano de Cargos e Carreiras que reduziu drasticamente a valorização profissional.
A diferença entre o início e o final da carreira, que antes era de 137%, despencou para 70,36%, penalizando principalmente trabalhadores mais antigos, que tiveram anos de progressão simplesmente achatados.
Segundo o SINDÁGUA-MS, o modelo viola princípios da CLT e deverá ser questionado judicialmente em 2026.
Empréstimos milionários com dinheiro do trabalhador
No mesmo dia em que aprovou o reajuste da cúpula, o Conselho autorizou a contratação de um empréstimo de R$ 26,882 milhões, com recursos do FGTS, no âmbito do Novo PAC, para obras de esgotamento sanitário em Ribas do Rio Pardo.
O detalhe é grave: o investimento originalmente previsto em edital era de R$ 3,233 milhões, já executados. Ainda assim, a estatal decidiu ampliar o endividamento público, beneficiando diretamente a PPP de Esgotos de Mato Grosso do Sul, criada sob o argumento de que a Sanesul não teria capacidade financeira para universalizar o serviço até 2033.
Parlamentares estaduais e municipais passaram a questionar publicamente:
-
Onde estão os mais de R$ 750 milhões prometidos em investimentos pela PPP?
-
Onde foram aplicados os R$ 400 milhões já pagos pela população via tarifa?
-
Por que municípios como Dourados seguem sem os investimentos previstos entre 2021 e 2025?
Dívida cresce, tarifa sobe, trabalhador paga a conta
Além desse financiamento, a Sanesul já havia contratado, em janeiro de 2025, outro empréstimo de R$ 99,25 milhões junto ao BNDES, inclusive para municípios que já alcançaram índices próximos à universalização.
Em Ribas do Rio Pardo, mesmo após cumprir o previsto em edital, a empresa contraiu mais dívida. O reflexo chega direto ao bolso da população: a AGEMS aprovou um tarifaço acumulado de 33% até janeiro de 2027.
Calote trabalhista e desobediência ao STF
Enquanto empreiteiras recebem pagamentos corrigidos e parcelados com benevolência, os trabalhadores da Sanesul enfrentam atrasos, calotes e desrespeito sistemático às decisões judiciais.
A empresa descumpre determinação do Supremo Tribunal Federal (RCL 49.563/MS), que exige o pagamento via precatórios. Estão pendentes:
-
adicionais de periculosidade a motociclistas;
-
ações trabalhistas transitadas em julgado;
-
precatórios trabalhistas de natureza alimentar, inclusive de idosos.
Os valores devidos aos trabalhadores são irrisórios diante dos montantes destinados a terceiros:
-
menos de 1% do gasto anual com terceirizações;
-
0,24% do que a PPP deixou de investir;
-
cerca de 0,45% do total já repassado ao parceiro privado.
Mesmo assim, a Sanesul encontra-se inadimplente junto ao TRT da 24ª Região, conforme certidão emitida em 12 de janeiro de 2026.
Plano de saúde: mais um golpe no orçamento
Como se não bastasse, os empregados iniciam 2026 com novo ataque ao orçamento familiar. O plano de saúde da UNIMED Dourados teve:
-
dobro do fator moderador (de R$ 50 para R$ 100);
-
reajuste de 13,47% em janeiro;
-
mais 4,53% em abril, totalizando 18,61%.
O SINDÁGUA-MS anunciou que irá exigir cópia integral do contrato e questionar judicialmente os critérios desses aumentos.
“Um escárnio contra quem faz o saneamento acontecer”
Para o presidente do SINDÁGUA-MS, Lázaro de Godoy Neto, a política da empresa revela quem são seus verdadeiros beneficiários:
“Enquanto a empresa contrata empréstimos, aumenta a dívida pública e garante correção aos empreiteiros, os trabalhadores esperam anos para receber direitos básicos. É um escárnio contra quem faz o saneamento acontecer no dia a dia.”
O sindicato cobra investigação do Ministério Público sobre o uso de recursos do FGTS para atender interesses privados e exige que os direitos trabalhistas sejam tratados com a mesma prioridade dada aos contratos milionários.
“Os empregados não são números em planilhas. São eles que garantem água e esgoto tratados para toda a população. Exigimos respeito, prioridade e o cumprimento integral da lei”, conclui o dirigente.

























