Declaração do governador nesta quarta-feira escancara contradição entre discurso de austeridade e arrecadação histórica, enquanto a rede pública enfrenta colapso estrutural
Na manhã desta quarta-feira, 7 de janeiro de 2026, o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), afirmou que o governo terá de “apertar o cinto com os gastos”, inclusive na área da saúde, ao comentar o orçamento aprovado para o ano. A declaração, feita em meio a questionamentos sobre atrasos de repasses e falta de recursos na rede pública, evidencia um paradoxo difícil de sustentar: o DF inicia 2026 com um orçamento recorde de R$ 74 bilhões, mas escolhe reduzir investimentos justamente na política pública mais sensível.
Apesar do aumento de R$ 8 bilhões em relação ao orçamento do ano anterior, a Secretaria de Saúde sofrerá um corte de R$ 1,1 bilhão na comparação com o que havia sido previsto na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). O discurso de austeridade surge, portanto, não em um cenário de crise fiscal, mas em um contexto de arrecadação elevada e expansão global das despesas do governo.
Hospital da Criança expõe contradições do discurso oficial
O pronunciamento do governador ocorreu após questionamentos sobre a situação do Hospital da Criança de Brasília, responsável por 52% dos leitos de UTI pediátrica da rede pública. A unidade acumulou atrasos de R$ 74 milhões em repasses e chegou a suspender atendimentos e fechar leitos em dezembro de 2025, cenário que levou o Judiciário a intervir e obrigar o GDF a liberar R$ 69 milhões para evitar o colapso do atendimento infantil.
Ibaneis atribuiu as dificuldades à elevação dos custos de insumos e ao desequilíbrio de contratos administrados pelo Instituto de Gestão Estratégica de Saúde (Iges-DF). Críticos, porém, apontam que esses fatores são conhecidos há anos e não justificam cortes em um momento de expansão orçamentária, sobretudo quando vidas estão diretamente em risco.
Rede sucateada e déficit humano crônico
A situação da saúde pública vai além da crise pontual de financiamento. O DF conta atualmente com cerca de 5 mil médicos, número que representa apenas metade do efetivo considerado necessário. Na atenção primária, a falta de 3 mil agentes comunitários de saúde limita a cobertura a cerca de 30% da população, comprometendo a prevenção e gerando um prejuízo anual estimado em R$ 200 milhões com doenças evitáveis.
A Vigilância Sanitária também opera no limite. Sem concurso público há quase 30 anos, o órgão dispõe de apenas 146 auditores para atender uma população de 3 milhões de pessoas, acumulando 25 mil processos de licenciamento pendentes e ampliando os riscos sanitários para a população.
Isenções bilionárias contrastam com cortes na assistência
Enquanto o governador fala em “apertar o cinto” na saúde, os números das renúncias fiscais caminham na direção oposta. O volume de impostos que o GDF deixa de arrecadar saltou de R$ 1,8 bilhão em 2019 para uma projeção de R$ 10,2 bilhões em 2026. Desse total, 81% correspondem a isenções de ICMS concedidas a empresas, sem transparência quanto a contrapartidas sociais efetivas.
A desigualdade também se reflete na distribuição territorial dos investimentos públicos. Regiões de alta renda, como o Lago Sul, recebem cerca de R$ 232 por morador, enquanto o Sol Nascente, uma das áreas mais vulneráveis do DF, recebe apenas R$ 17 per capita.
Corrupção, terceirização e risco estrutural ao SUS
O contexto se agrava com investigações como a Operação Escudero, que apura desvios de recursos em contratos de alimentação do Iges-DF. Ainda assim, o governo avança em medidas como o Voucher Saúde (PL 1.375/2024), aprovado pela CLDF, que permite o atendimento de pacientes do SUS em hospitais privados. Entidades sindicais alertam que o projeto não indica fontes adicionais de financiamento e pode aprofundar o esvaziamento da rede pública.
Escolha política, não falta de recursos
A fala do governador nesta quarta-feira sintetiza o dilema central da saúde no DF: o problema não é escassez de dinheiro, mas prioridade política. Em um cenário de arrecadação recorde, o governo opta por conter gastos na saúde, ampliar isenções fiscais e manter uma distribuição orçamentária desigual.
Na prática, a política adotada se assemelha à de um síndico que, mesmo com o caixa do condomínio em alta, decide economizar na manutenção essencial e na segurança coletiva, enquanto concede benefícios generosos apenas aos moradores mais privilegiados. O custo dessa escolha, no DF, é pago diariamente pela população que depende do SUS.





















