O Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul (TCE-MS) chega a 2026 tentando reconstruir uma credibilidade profundamente abalada. Três anos após a deflagração da Operação Terceirização de Ouro uma das mais graves investigações já realizadas contra a instituição o discurso oficial é de renovação, transparência e modernização. Na prática, porém, o passado insiste em não passar.
Responsável por fiscalizar o uso do dinheiro público, o TCE-MS tornou-se símbolo de tudo aquilo que deveria combater: suspeitas de corrupção, contratos milionários questionáveis, licitações direcionadas e uma cúpula atingida em cheio por investigações da Polícia Federal. A operação, deflagrada em dezembro de 2022, revelou um suposto esquema de fraudes que envolvia conselheiros, servidores e empresários, expondo fragilidades estruturais e éticas do órgão.
O caso mais emblemático foi o contrato com a empresa Dataeasy Informática, que ultrapassou a marca de R$ 100 milhões. Apontado como núcleo das irregularidades, o contrato acabou suspenso e posteriormente revogado, mas o estrago institucional já estava feito. A imagem de guardião das contas públicas deu lugar à de um tribunal incapaz de vigiar a si próprio.
À época, o então presidente Iran Coelho das Neves e os conselheiros Waldir Neves e Ronaldo Chadid foram afastados por decisão judicial. A cúpula do TCE-MS ruiu, e o órgão passou a funcionar sob intervenção indireta, com conselheiros substitutos e uma gestão marcada mais pela tentativa de sobrevivência institucional do que por liderança efetiva.
O retorno de dois dos três conselheiros afastados autorizado por decisões do Supremo Tribunal Federal escancarou outro problema: a lentidão do sistema judicial. Sem julgamento de mérito, sem absolvição clara e sem condenação, Waldir Neves e Iran Coelho reassumiram seus cargos em 2025, beneficiados por decisões monocráticas. O efeito simbólico foi devastador: para a sociedade, ficou a sensação de que tudo terminou em pizza.
Ronaldo Chadid segue afastado, acumulando perdas salariais e derrotas judiciais, enquanto o processo principal continua sem conclusão definitiva. O contraste entre discursos de rigor e a realidade de impunidade reforça a desconfiança pública.
Internamente, o Tribunal aposta em narrativas de “nova fase”, revisão de contratos e fortalecimento da transparência. Mas essas iniciativas esbarram em um obstáculo incontornável: a falta de autocrítica profunda e de responsabilização clara. Não houve pedidos públicos de desculpas à sociedade, nem explicações convincentes sobre como práticas tão graves prosperaram por anos dentro de uma instituição que deveria ser exemplo de controle e legalidade.
A Operação Terceirização de Ouro, desdobramento da Mineração de Ouro, revelou práticas incompatíveis com qualquer padrão republicano: exigências técnicas artificiais, licitações feitas sob medida, serviços distintos agrupados em um mesmo certame e uso de atestados de capacidade técnica sob suspeita de falsificação. Nada disso ocorreu à margem do Tribunal ocorreu dentro dele.
Entrar em 2026 falando em “virar a página” soa, no mínimo, precipitado. A página só se vira quando há leitura completa do que está escrito — e, no caso do TCE-MS, ainda há muitos capítulos sem resposta. Enquanto as investigações não forem concluídas, responsabilidades não forem claramente atribuídas e mudanças estruturais reais não forem percebidas, o discurso de renovação continuará sendo apenas retórica.
Mais do que tempo, o Tribunal precisa recuperar algo muito mais difícil: a confiança da sociedade sul-mato-grossense. E isso não se faz com notas institucionais, mas com transparência real, julgamentos efetivos e o fim da sensação de que, no topo do poder, a lei segue sendo flexível.























