Dinheiro Público

Vereador destina R$ 50 mil em recurso público para projeto fundado por ele mesmo

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Fábio Rocha (União) direcionou emenda a organização fundada por ele e atualmente registrada no nome da cunhada

 

O vereador Fábio Rocha (União), que cumpre seu primeiro mandato na Câmara Municipal de Campo Grande, destinou R$ 50 mil em emenda parlamentar de 2025 para o Esquadrão da Juventude, projeto social que ele próprio fundou. A entidade, embora atualmente esteja registrada no nome de sua cunhada, segue associada ao nome e trajetória política do parlamentar. O repasse foi oficializado por meio de extrato publicado no Diário Oficial nesta quinta-feira (5).

“Perante a lei, o vereador pode destinar para qualquer instituição. Há dez anos que eu não sou da diretoria, desde 2015, lembrando que o projeto é de 2003, eu tive só nos dois primeiros anos e nunca recebeu nenhuma emenda e está apta mais de dez anos receber recurso, era um compromisso que eu tinha até ser eleito de o projeto poder receber recurso só depois para provar para as pessoas que é possível começar um trabalho sem emendas”, disse o parlamentar tentando justificar a destinação.

Apesar de alegar que está fora da diretoria, o Fábio Rocha admite ser o “pai” do projeto. “Sou pai, né? Sou pai, sou fundador, e como qualquer pai, vai lutar pelo direito dos seus filhos”, afirmou.

A destinação direta de recursos públicos para uma organização com laços tão próximos ao parlamentar levanta dúvidas sobre a legalidade e, sobretudo, sobre a ética do ato. A situação se agrava com o contexto de declarações anteriores do próprio vereador, que antes de ser eleito criticava a prática de uso de emendas parlamentares, chegando a sugerir que o mecanismo abria margem para esquemas de “rachadinha”.

Em novembro de 2023, enquanto ocupava o cargo de adjunto da Subsecretaria Municipal de Articulação Social e Assuntos Comunitários, ele foi protagonista de uma polêmica ao afirmar, em um podcast, que vereadores frequentemente propõem esquemas de “rachadinha” com entidades beneficiadas por emendas parlamentares.

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“Vou te mandar vinte mil. Precisava de dez, então vou te mandar cinquenta, você me devolve trinta. Aí é onde os caras vêm municiados para a campanha”, afirmou, em um podcast que circulou entre grupos de WhatsApp e provocou desconforto entre os parlamentares da época.

Além do próprio Fábio Rocha, outros vereadores também destinaram recursos para o Esquadrão da Juventude. Foram eles:

Victor Rocha (PSDB) – R$ 50 mil
Jean Ferreira (PT) – R$ 50 mil
Professor Juari (PSDB) – R$ 60 mil
Veterinário Francisco (União) – R$ 150 mil
O total repassado à entidade, portanto, já soma R$ 360 mil em emendas parlamentares para 2025. A legalidade da prática, embora não necessariamente configurada como crime, pode esbarrar em questões éticas e falta de impessoalidade na gestão do recurso público.

Além do direcionamento de recursos para a instituição ligada ao próprio nome, Fábio Rocha está envolvido em outro aspecto: a troca de emendas com outros parlamentares. Ele destinou R$ 100 mil à Casa Rosa, projeto social ao qual o vereador Victor Rocha (PSDB) é ligado. Coincidentemente, Victor também destinou R$ 50 mil ao Esquadrão da Juventude.

Questionado sobre a possível troca, Fábio Rocha minimizou a gravidade. “Eu acho que não é ético roubar, matar, fazer coisas erradas. Quando você faz alguma coisa pra ajudar as pessoas, sim, é ético.”

A Casa Rosa, por sua vez, é uma instituição de referência na área de saúde e combate ao câncer. Victor Rocha se defendeu das acusações de favorecimento, afirmando atuar como voluntário na instituição e que não recebe qualquer benefício financeiro. “Nunca recebi, nem tenho pretensão de receber um centavo da Casa Rosa.”

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O vereador Jean Ferreira (PT) que destinou R$ 50 mil ao projeto fundado pelo colega, defendeu o repasse ao Esquadrão da Juventude sob a justificativa de impacto social da entidade:

“Da minha parte, a análise para destinação das emendas foi guiada por motivos técnicos, humanitários e de impacto social, inclusive ao Esquadrão da Juventude Saúde, pois a entidade atende centenas de famílias sem condições de pagar por tratamentos privados, ajudando a comunidade a enfrentar com um pouco mais de dignidade a grave crise de saúde pública que existe em Campo Grande nesta gestão atual”, disse.

O vereador Juari Lopes (PSDB), comentou que seu mandato atua com foco em políticas públicas para a juventude e afirmou que destinou recursos ao projeto por reconhecer o trabalho da entidade. Além disso alegou não saber da ligação direta de Fábio Rocha com o Esquadrão até depois da destinação:

“Sempre acompanhei e admirei o trabalho do Esquadrão. Depois é que descobri que o Fábio era fundador. Conversei com ele, e ele me abriu a possibilidade de acompanhar a execução. Isso é raro. Muitas entidades não prestam contas diretamente ao vereador”, ressaltou.

Colega de partido de Fábio Rocha, o vereador Francisco Gonçalves, o Veterinário Franciso, foi o que mais destinou recursos à entidade. Ele justificou o valor elevado com base na complementação de atendimentos da saúde pública por parte do Esquadrão:

“Encaminho pacientes para lá quando o SUS não consegue atender. Eles têm psicólogos, fisioterapeutas, dentistas. Conheço o trabalho e sei que fazem o que o serviço público não dá conta.” Francisco não comentou diretamente o vínculo de Rocha com o projeto, mas tratou o repasse como uma escolha técnica e funcional.

CAMPOGRANDENEWS

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