O Governo Lula e defensores dos brasileiros com menos renda, já estavam comemorando e ‘cantando vitória’ da pauta ante a “Câmara aprova urgência a PL ‘promessa de Lula’ de isenções do Imposto de Renda a beneficiar 36 milhões de brasileiros”, como o Pauta Diária noticiou na última quinta-feira (21). Mas, a oposição, pela extrema direita do PL (Partido Liberal) e centro-direita, o famoso Centrão, estão querendo inviabilizar a isenção do IR a quem ganha R$ 5 mil.
Os dias posteriores, a aprovação da urgência do PL, foram de rumores quase certos, que se mostram reais já nesta semana, de que querem proteger o topo da pirâmide econômica, os ricos milionários ante o epicentro de uma das maiores desigualdades tributárias do mundo, que seria aliviar o peso do Imposto de Renda sobre 36 milhões da classe média de trabalhadores.
A proposta do governo Lula, que amplia a faixa de isenção até R$ 5 mil, diminui imposto entre 5 a 7 mil e taxa os super-ricos, esbarra na resistência da oposição e do centrão, escancarando um impasse que vai muito além da contabilidade — é a luta por justiça fiscal em uma democracia marcada por privilégios históricos e representantes ‘do povo’, eleitos da própria casta ou por eles –ricos- para defende-los sempre.
Assim, a crônica da desigualdade fiscal brasileira parece ter um novo capítulo, mas com velhos personagens e interesses. A proposta do governo federal de ampliar a isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil mensais — promessa de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva — tem enfrentado forte resistência no Congresso, principalmente ou unicamente, por haver a pretensão e consolidar a ‘cobrança’ dos milionários.
A razão não é técnica: é política
O cerne da disputa está em quem deve pagar a conta — os 141 mil brasileiros, que compõem o 0,01% mais rico da população ou os milhões de trabalhadores que historicamente arcam com o peso da carga tributária.
Segundo o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, mais de 20 milhões de brasileiros passaram a pagar imposto injustamente após o congelamento da tabela do IR entre 2015 e 2022, período que abrange os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro.
A defasagem, que chegou a 36% segundo o Sindifisco Nacional, comprometeu a renda dos assalariados, enquanto os rendimentos de capital, como lucros e dividendos, seguiram pouco ou nada tributados.
“Os sete anos de não correção da tabela do Imposto de Renda incluíram no pagamento deste tributo algo em torno de 20 milhões de brasileiros que não deveriam estar pagando”, denunciou Haddad, durante evento do PT em Brasília (2025).
Ricos ‘ajudarem’
A proposta atual, contida no Projeto de Lei 1.087/2025, aprovado em regime de urgência pela Câmara, beneficiaria até 36 milhões de brasileiros. A ampliação da isenção iria a 20 milhões com rendas de até R$ 5 mil, e, reduzindo alíquotas para quem ganha até R$ 7.350, atingiria outros 16 milhões da população.
A medida seria neutra do ponto de vista fiscal, já que sua compensação viria da criação de uma alíquota extra de até 10% para rendas anuais acima de R$ 600 mil — ou mensais acima de R$ 50 mil. Mas esse ponto é justamente o alvo da resistência de setores do centrão e da oposição.
A deputada Talíria Petrone (PSOL-RJ) foi direta ao descrever o movimento: “O que eles dizem é que não dá para um setor econômico do país pagar a conta. No fundo, querem manter a concentração de renda”, afirmou. “É um escândalo que infelizmente se expressa no sistema tributário brasileiro, tão desigual.”
Oposição e setores do mercado rejeitam progressividade
Em reunião fechada com investidores, promovida pela Legend Investimentos e realizada no BTG Pactual, o senador Ciro Nogueira (PP-PI), um dos principais articuladores do centrão, evitou declarar apoio à taxação dos mais ricos. Preferiu tratar da “viabilidade política” da proposta. A recepção dos investidores à ideia de uma tributação mais progressiva foi gélida. Um deles resumiu o desconforto: “Aqui está todo mundo taxado acima dos R$ 50 mil”.
A frase sintetiza uma lógica que orienta grande parte das decisões políticas e econômicas no Brasil: o poder de veto informal que setores privilegiados exercem sobre mudanças estruturais. Não se trata apenas de uma disputa sobre porcentagens, mas sobre quem molda o sistema e para quem ele funciona.
Como apontou o economista e professor Eduardo Fagnani (Unicamp), em entrevista à revista CartaCapital: “O Brasil tributa pouco e mal. Cobrança elevada sobre consumo e folha de pagamento e quase nada sobre renda e patrimônio. Isso perpetua a desigualdade.”
A resistência à taxação dos super-ricos tem levado parlamentares conservadores a defender que a isenção para a classe trabalhadora venha acompanhada de cortes no orçamento — medida que, segundo especialistas, ameaça políticas públicas essenciais. Para o governo, isso significaria transformar uma política redistributiva em mera renúncia fiscal.
O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) foi categórico ao acusar o centrão de tentar “desidratar o projeto”: “Propor cortes de despesas como alternativa desvirtua o sentido da proposta. Isenção do imposto de renda já. Tributação dos mais ricos.”
A proposta em números: impacto social e econômico
De acordo com o DIEESE, a ampliação da faixa de isenção poderá dobrar o número de brasileiros isentos, saltando de 10 milhões para 20 milhões. Já a redução parcial para rendas até R$ 7,3 mil beneficiará 16 milhões de pessoas.
Em um país onde o consumo das famílias representa mais de 60% do PIB, essa descompressão sobre a renda da base pode ter efeitos diretos no aquecimento do mercado interno e na geração de empregos.
Um projeto de País em disputa
No fim das contas, o debate sobre a correção da tabela do Imposto de Renda é também um espelho de como o Brasil lida com sua herança histórica de desigualdade. Desde a escravidão até o neoliberalismo dos anos 1990, passando pelas reformas regressivas dos anos 2010, o país tem estruturado sua política fiscal com foco na manutenção de privilégios.
Agora, o Congresso tem diante de si uma oportunidade rara: reverter parte desse desequilíbrio histórico e realinhar a política tributária aos princípios democráticos de justiça e equidade. Se a elite econômica brasileira aceitar abrir mão de uma fração de sua renda para fortalecer o conjunto da sociedade, poderá começar a se construir uma nova relação entre Estado, mercado e cidadania.
Mas se o projeto for desidratado em nome da “viabilidade política”, perderemos mais do que arrecadação — perderemos uma chance de afirmar que a democracia, no Brasil, também passa pela forma como se cobra (ou se deixa de cobrar) impostos.

























