A postura do presidente da Câmara Municipal de Campo Grande, vereador Epaminondas Neto, o Papy (PSDB), diante do veto da prefeitura ao projeto que reduziria o impacto do IPTU, expõe um Legislativo fragilizado, sem pulso político e cada vez mais submisso ao Executivo.
Mesmo após a Câmara ter aprovado, com expressivos 20 votos, o projeto que suspendia os efeitos do decreto que reajustou a taxa do lixo aumento que encareceu diretamente o IPTU de 2026 , Papy passou a sinalizar publicamente que não vê “propósito” na derrubada do veto, escudando-se no medo de uma eventual judicialização.
Na prática, o presidente da Casa antecipa derrota, desmobiliza os vereadores e esvazia qualquer tentativa de reação institucional contra um aumento que já pesa no bolso da população.
Medo da Justiça ou falta de coragem política?
Ao afirmar que a Prefeitura “avança muito bem na Justiça” e que uma eventual derrubada do veto poderia ser facilmente anulada, Papy parece assumir como inevitável uma derrota que sequer foi formalmente enfrentada. O discurso, longe de ser técnico, soa como justificativa política para a inação.
Cabe ao Legislativo legislar. Cabe à Prefeitura, se assim entender, judicializar. Inverter essa lógica deixando de agir por receio de uma ação futura é abrir mão da autonomia do Parlamento e transformar a Câmara em mera espectadora das decisões do Executivo.
Mais grave ainda é o presidente classificar uma eventual sessão para derrubar o veto como um “ato político”, como se o exercício do mandato parlamentar não fosse, por essência, político e representativo.
Recesso conveniente e demora estratégica
A demora em reagir ao veto também chama atenção. Embora o presidente admita que tinha conhecimento informal da decisão da prefeita desde o dia seguinte à sessão, a Câmara só se movimenta quase uma semana depois, já em pleno recesso parlamentar.
O discurso burocrático de que o veto “chegou oficialmente” apenas na sexta-feira (16) contrasta com a urgência do tema: Campo Grande já deixou de arrecadar R$ 200 milhões em IPTU, segundo a própria Prefeitura, enquanto o contribuinte segue pagando uma conta inflada por um decreto contestado.
Presidente desestimula a própria base
O resultado desse vácuo de liderança é visível. Dos 29 vereadores, apenas nove reafirmaram publicamente a intenção de derrubar o veto. Ou seja, mesmo com maioria anterior folgada, a Câmara hoje não tem sequer garantia dos 15 votos necessários.
Esse esvaziamento não aconteceu por acaso. Ele é consequência direta de um presidente que, em vez de articular, desestimula, em vez de liderar, antecipa recuos, e em vez de defender a decisão do plenário, questiona sua validade antes mesmo do embate.
Câmara refém do Executivo
Enquanto isso, a Prefeitura já deixou claro que irá à Justiça caso o veto seja derrubado. A ameaça jurídica, no entanto, não pode servir como mordaça institucional. Caso contrário, qualquer projeto que desagrade o Executivo estará automaticamente morto antes mesmo de ser defendido.
Ao relativizar a derrubada do veto e tratar a iniciativa como algo quase inútil, Papy reforça a percepção de que a Câmara de Campo Grande abdica de sua função fiscalizadora e legislativa, optando pelo caminho mais confortável: não confrontar.
No fim, quem perde não é a Prefeitura, nem o presidente da Câmara. Quem perde é o contribuinte, que assiste a um aumento de imposto ser mantido não por força da lei, mas pela falta de disposição política de quem deveria representá-lo.





















