O altar como comício: A oração política de Silas Malafaia e o eco de Caifás.

Foto: Pedro Ladeira/Folha de S. Paulo

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A transformação de templos religiosos em extensões de tribunais e palanques eleitorais atingiu um novo patamar com os recentes eventos na Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC). Enquanto o estilo de oração bíblico tradicional foca na comunhão espiritual e na busca pelo sagrado, o pastor Silas Malafaia utilizou a liturgia da Santa Ceia para conduzir o que pode ser descrito como uma “oração nominativa eleitoral”, interrompendo o rito religioso para declarar apoio explícito à pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência em 2026. 

Entre a fé e o voto, a distorção da oração bíblica, que busca a intercessão divina por propósitos universais de paz e conversão, a oração de Malafaia foi estritamente política e direcionada. Ao convocar políticos como Flávio Bolsonaro, Cláudio Castro e Douglas Ruas ao altar, o pastor não apenas pediu bênçãos, mas selou alianças partidárias. A retórica utilizada — “Esse é o tempo de eu apoiar o Flávio para presidente” — distorce passagens bíblicas (como a de que há tempo para todo propósito debaixo do sol) para legitimar escolhas eleitorais específicas e ataques a adversários. 

Essa “oração política” também se manifestou como uma ferramenta de ataque ao Judiciário. Malafaia utilizou o momento de clamor para proferir sentenças contra o ministro Alexandre de Moraes, afirmando que “virá justiça e juízo sobre eles” caso não se arrependam, transformando o diálogo com o divino em um veículo de retaliação pessoal e política. 

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A igreja como palanque, o paralelo com Caifás e presença massiva de pré-candidatos no altar — incluindo Marcelo Crivella e Sóstenes Cavalcante — reforça a crítica de que a igreja foi desvirtuada de sua finalidade espiritual para servir de instrumento de campanha. Este cenário evoca uma comparação histórica com a figura de Caifás, o Sumo Sacerdote que presidia o Sinédrio na época da crucificação de Jesus. Assim como Malafaia defende abertamente a “mistura de política e religião”, Caifás operava na intersecção do poder religioso com a conveniência política romana para manter sua influência e eliminar opositores que ameaçavam o status quo. 

O paralelo reside no uso da autoridade religiosa para fins de controle civil e perseguição. Enquanto Malafaia clama por um “escape para essa nação” ao mesmo tempo que ataca o STF e o sistema de assistência social (como o Bolsa Família, que ele classificou como “compra de voto”), ele replica a lógica de usar o sagrado para validar uma agenda de poder temporal. 

Essa postura já gera reações legais contundentes. A Associação Movimento Brasil Laico protocolou uma representação acusando os envolvidos de abuso de poder religioso e econômico, além de propaganda eleitoral antecipada. O documento argumenta que a estrutura da igreja foi usada para conceder vantagem indevida a candidatos, o que pode levar à inelegibilidade de Malafaia e Flávio Bolsonaro por oito anos. 

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Além disso, há o risco de a instituição perder sua imunidade tributária devido ao evidente desvio de finalidade, já que o culto foi transformado em um ato de “reconciliação pública” e estratégia eleitoral, afastando-se do caráter estritamente religioso previsto na Constituição. 

A comparação entre a oração que busca a Deus e a oração que busca o voto revela uma crise de identidade institucional. Quando o pastor defende que atacar o cristianismo é “dar poder ao islamismo” ou ao “ateísmo-humanista”, ele utiliza o medo religioso como combustível eleitoral, tal qual as lideranças que, no passado, viram na mensagem de Jesus uma ameaça política que precisava ser contida pelo sistema religioso vigente. 

 

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