Ex-governador passa a ser alvo direto de investigação parlamentar após renúncia, em meio a suspeitas envolvendo contratos, operações financeiras e o papel do BRB
A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado aprovou a convocação obrigatória do ex-governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, ampliando o alcance político e institucional das investigações em curso no Congresso Nacional.
A medida ocorre um dia após a renúncia de Ibaneis ao cargo, movimento que retirou a proteção jurídica que impedia a convocação de governadores em exercício por CPIs. Com isso, o ex-chefe do Executivo local passa à condição de investigado que pode ser obrigado a depor, sob pena de condução coercitiva.
O requerimento foi apresentado pelo senador Alessandro Vieira, relator da comissão, e também incluiu a convocação do ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro.
Eixos centrais da investigação
A CPI sustenta sua decisão em dois principais eixos que colocam Ibaneis no centro das apurações.
O primeiro envolve as relações comerciais de seu escritório de advocacia, que teria firmado contratos milionários com empresas e fundos investigados em operações da Polícia Federal. Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontam movimentações consideradas atípicas, incluindo valores expressivos recebidos de grupos empresariais e instituições financeiras sob suspeita.
O segundo eixo mira diretamente sua atuação como governador, especialmente em decisões relacionadas ao Banco de Brasília (BRB). A CPI investiga indícios de interferência política na aquisição de ativos do chamado Banco Master, instituição posteriormente liquidada pelo Banco Central do Brasil por suspeitas de fraude.
Segundo os parlamentares, a operação pode ter envolvido cerca de R$ 12 bilhões em ativos de alto risco, levantando questionamentos sobre possível uso do banco público para absorver prejuízos privados.
Mudança de cenário jurídico
A convocação só se tornou possível após a saída formal de Ibaneis do cargo. O entendimento consolidado do Supremo Tribunal Federal impede a convocação de governadores em exercício por CPIs, sob o argumento de preservação do pacto federativo.
Com a renúncia, no entanto, o ex-governador perde essa prerrogativa, abrindo espaço para sua convocação obrigatória, um movimento que intensifica a pressão política sobre sua trajetória recente e seus vínculos institucionais.
Antes disso, Ibaneis já havia se recusado a comparecer a convites da comissão, alegando incompatibilidade de agenda.
Reação e estratégia de defesa
Em resposta, Ibaneis afirmou não enxergar fundamento na convocação e indicou que sua equipe jurídica avalia possíveis medidas no STF. Entre os caminhos, está a tentativa de obtenção de habeas corpus para garantir o direito ao silêncio ou até mesmo suspender a obrigatoriedade do depoimento.
A defesa também levanta a hipótese de “desvio de finalidade”, questionando a pertinência de sua inclusão em uma comissão voltada ao combate ao crime organizado.
Escalada política
A decisão da CPI ocorre em um momento sensível, em que Ibaneis se reposiciona politicamente com vistas às eleições de 2026. A convocação tende a impactar diretamente sua estratégia eleitoral, ao colocá-lo no centro de um debate nacional envolvendo gestão pública, sistema financeiro e possíveis irregularidades.
Além dele, a comissão aprovou novas medidas, como a reconvocação do ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, e a quebra de sigilo de investigados ligados ao caso.
Próximos passos
A presidência da CPI deve definir nos próximos dias o calendário de oitivas. A expectativa é que os depoimentos ocorram em meio a um ambiente de forte tensão política, com potencial de novos desdobramentos tanto no campo jurídico quanto no eleitoral.
O caso reforça a crescente interseção entre investigações parlamentares e disputas políticas, especialmente quando envolve figuras centrais da administração pública e operações financeiras de grande escala.




















