Prefeito, que em 2019 cobrou planejamento contra dengue, agora é alvo de denúncias de inércia enquanto surto já deixou mortos — incluindo bebês — na Reserva Indígena
A crise da chikungunya em Dourados expôs uma contradição difícil de ignorar: o atual prefeito Marçal Filho, que em 2019 criticava duramente a gestão municipal pela falta de planejamento contra a dengue, hoje enfrenta acusações de omissão diante de um cenário considerado ainda mais grave. À época deputado estadual, ele cobrava rapidez na decretação de emergência e ações preventivas. Sete anos depois, no comando do Executivo, é apontado como inerte enquanto a doença avança e deixa vítimas.
O município se tornou o epicentro da chikungunya em Mato Grosso do Sul, com mais de 1.365 casos confirmados em 2026 e cinco mortes. Duas outras ainda estão sob investigação. O quadro é ainda mais dramático na Reserva Indígena de Dourados, onde faltam coleta regular de lixo, visitas domiciliares e ações contínuas de combate ao mosquito Aedes aegypti o mesmo vetor da dengue que Marçal dizia, no passado, exigir planejamento permanente.
Vídeo resgatado de abril de 2019 mostra o então parlamentar criticando a ex-prefeita pela demora em decretar emergência e afirmando que a ausência de planejamento favorecia crises cíclicas. Hoje, lideranças indígenas e representantes da saúde apontam que o prefeito repetiu exatamente os erros que condenava. A reação do município teria ocorrido apenas após cobranças do Governo do Estado, quando o surto já estava fora de controle.
A gravidade da situação é evidenciada pelas vítimas: entre os mortos estão dois bebês, de apenas um e três meses. Para o ex-subsecretário de Políticas Públicas para Povos Originários, Fernando Souza, a administração estava em “estado de estagnação” até o início de março, reagindo apenas após intervenção estadual. Segundo ele, foi necessária uma “reunião dura” com representantes da Secretaria de Estado de Saúde para evitar que as mortes fossem tratadas como algo normal.
Os problemas estruturais reforçam as críticas. Relatórios da própria Secretaria Municipal de Saúde indicam que a gestão não atingiu as metas de prevenção ao Aedes aegypti em 2025. O sindicato dos agentes de endemias denuncia que a cidade possui apenas 84 profissionais, quando seriam necessários 183. Isso significa que mais da metade dos cargos está vazia. Sem pessoal, cerca de 40% da área urbana e toda a Reserva Indígena ficaram sem visitas regulares de fiscalização e orientação.
Além da falta de agentes, há denúncias de sucateamento: ausência de uniformes, equipamentos e até crachás. Mesmo com concurso vigente, a prefeitura não convocou novos servidores. Para parlamentares e lideranças, a omissão administrativa contribuiu diretamente para o agravamento do surto.
A situação nas aldeias Jaguapiru e Bororó foi considerada crítica, levando o governo federal a agir. Foram anunciados R$ 53 milhões para ampliação da rede de água, além de recursos emergenciais para limpeza e saúde. Diante da inércia municipal, a União contratou 50 agentes temporários e autorizou o envio de 40 militares do Exército para auxiliar no combate ao mosquito.
Mesmo com o agravamento da crise e a pressão pública, a Prefeitura de Dourados foi procurada diversas vezes para comentar as denúncias, mas optou por não se manifestar. O silêncio da administração, em meio ao avanço da doença e às mortes registradas, intensifica as críticas de que o prefeito repete a postura que ele próprio condenava no passado — agora com consequências mais severas e irreversíveis.





















