O Tribunal de Contas de Mato Grosso do Sul (TCE-MS), órgão que deveria ser bastião da moralidade e da boa gestão pública, mergulha em mais uma crise ética de proporções alarmantes. No centro do escândalo está o conselheiro Waldir Neves, afastado por mais de dois anos por suspeitas gravíssimas de corrupção, e agora cotado para renunciar ao cargo numa manobra que serviria não para restaurar a integridade da instituição, mas para abrir mais uma vaga para barganhas políticas.
A suposta renúncia de Waldir não é motivada por um gesto de responsabilidade ou arrependimento. É, na prática, uma jogada estratégica pressionada por bastidores políticos para evitar a cassação definitiva em caso de condenação e, ao mesmo tempo, garantir a continuidade do uso político das cadeiras do tribunal.
Um tribunal nas mãos da velha política
A gravidade das acusações contra Waldir Neves fraudes em licitações, uso de empresas de fachada, blindagem patrimonial já seria suficiente para qualquer agente público ser afastado de forma definitiva. Mas não no TCE-MS. Amparado por decisões judiciais que ignoram a indignação pública, Waldir retornou ao cargo em maio deste ano por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do STF. A decisão revogou até mesmo o uso da tornozeleira eletrônica, em nome da “razoável duração do processo” um argumento que se torna, na prática, um salvo-conduto para o atraso proposital da Justiça quando envolve poderosos.
Mesmo sem ter sido tornado réu até agora, o conselheiro é peça central de um processo que se arrasta no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e que revela um esquema de corrupção sistêmica no órgão responsável justamente por fiscalizar o uso do dinheiro público.
A permanência de Waldir é mais do que simbólica: é um retrato fiel da falência moral e funcional do TCE-MS. Mas sua eventual saída não representa esperança de renovação e sim o aprofundamento do loteamento político da instituição.
Uma corte loteada como prêmio de lealdade
Com a aposentadoria compulsória de Jerson Domingos prevista para o próximo mês, e a possível renúncia de Waldir Neves, duas cadeiras no TCE-MS podem cair diretamente no colo da Assembleia Legislativa mais preocupada em agradar aliados do que em indicar nomes técnicos e idôneos.
O primeiro nome praticamente certo é o de Sérgio de Paula, ex-chefe da Casa Civil e apadrinhado do ex-governador Reinaldo Azambuja, ele próprio alvo da Operação Vostok. A indicação escancara o uso político de uma vaga que deveria ser ocupada por quem tem compromisso com a fiscalização e a transparência.
A segunda vaga, ainda incerta, já provoca movimentações intensas nos bastidores. O deputado Lídio Lopes, que articula sua indicação ao tribunal, tenta se viabilizar politicamente diante da baixa popularidade da gestão de sua esposa, a prefeita Adriane Lopes. Para muitos, seria um prêmio de consolação travestido de missão institucional.
O preço da omissão: quem paga é o cidadão
A situação do TCE-MS não é apenas vexatória — é lesiva. Cada indicação política, cada blindagem a conselheiros investigados, cada escândalo abafado compromete diretamente a fiscalização do erário e, por consequência, penaliza a população que depende de serviços públicos sérios, transparentes e fiscalizados.
A crise moral instalada no tribunal não será resolvida com renúncias estratégicas ou substituições entre aliados. É necessária uma reforma profunda e urgente no processo de escolha dos conselheiros, acabando com o balcão de negócios que transformou um órgão técnico em moeda de troca.
Enquanto os escândalos viram notas de rodapé na imprensa local e a Justiça caminha a passos lentos, o TCE-MS se transforma em símbolo da impunidade institucionalizada — um tribunal que julga tudo, menos a si mesmo.
Renúncia não basta. É hora de ruptura com o sistema.
A renúncia de Waldir Neves, se confirmada, não deve ser celebrada como vitória moral. É, no máximo, uma manobra de sobrevivência política. A verdadeira vitória seria impedir que novas indicações políticas sigam perpetuando esse ciclo de corrupção e impunidade.
O povo sul-mato-grossense não precisa de trocas entre as mesmas peças. Precisa de um novo tabuleiro.






















