Troca no Conselho de Administração ocorre em meio a rombo bilionário, investigações da PF e críticas de blindagem política a gestores ligados ao caso Banco Master
O Banco de Brasília (BRB) vive uma de suas maiores crises institucionais, em meio a investigações da Polícia Federal, alertas severos do Banco Central e um embate político nos bastidores do Governo do Distrito Federal (GDF). Mais do que uma simples troca administrativa, a recente mudança no comando do Conselho de Administração (Consad) revela uma estratégia clara de contenção de danos, com sinais de tentativa de mascarar a responsabilidade de dirigentes que participaram das decisões hoje sob suspeita.
A intervenção direta da governadora em exercício, Celina Leão, para afastar Marcelo Talarico da presidência do Consad ocorreu apenas após resistência explícita do conselheiro, que se recusava a deixar o cargo antes do término de seu mandato, previsto para 2026. O gesto, no entanto, está longe de encerrar a crise e, para críticos, evidencia uma movimentação política seletiva, que preserva parte da cúpula envolvida nos atos investigados.
Queda de braço no topo do banco
O conflito se intensificou após o novo presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, nomeado em novembro de 2025, solicitar a saída de Talarico do comando do conselho. A negativa inicial expôs publicamente a fragilidade da governança da instituição e o descompasso entre diretoria executiva e Conselho de Administração, justamente em um momento em que o banco enfrenta questionamentos de órgãos reguladores.
Talarico sustentou que o Consad é hierarquicamente superior à diretoria e que seus membros só podem ser destituídos por Assembleia de Acionistas. Ainda assim, diante do desgaste político e da escalada da crise, Celina Leão anunciou a substituição por Edison Antônio Costa Brito Garcia, numa decisão vista por analistas como mais simbólica do que estrutural.
Rombo bilionário e silêncio seletivo
Por trás da disputa de cargos, há um problema de fundo muito mais grave: o Banco Central emitiu alerta formal exigindo um plano de recuperação de liquidez, após estimativas preliminares indicarem um rombo contábil que pode chegar a R$ 10 bilhões. O buraco financeiro está diretamente associado à aquisição de carteiras de crédito do Banco Master, operação hoje investigada pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero.
Apesar da gravidade das suspeitas, o GDF tem adotado um discurso de que os problemas são “herdados” e que a simples troca de comando seria suficiente para restabelecer a normalidade. O que chama atenção é que os principais gestores que participaram da aprovação dessas operações seguem preservados, seja em cargos estratégicos, seja fora do foco das mudanças anunciadas.
Governança falhou e o governo tenta reescrever a história
Entidades representativas dos trabalhadores e especialistas em finanças públicas afirmam que a crise do BRB não é fruto de erro isolado, mas de falhas sistêmicas de governança. Marcelo Talarico, além de presidir o Consad, também esteve à frente do Comitê de Auditoria, órgão responsável justamente por identificar riscos e irregularidades, o que levanta questionamentos sobre como operações bilionárias passaram sem alertas eficazes.
Para o Sindicato dos Bancários do DF, a substituição pontual de um nome é uma tentativa de criar um “bode expiatório”, enquanto o restante da cúpula que aprovou as decisões segue intocado. A entidade defende uma renovação completa da diretoria e do Conselho, sob o argumento de que não é possível exigir credibilidade de quem participou diretamente dos atos investigados.
Blindagem política e risco institucional
Nos bastidores do Buriti, a avaliação é de que o governo tenta evitar que a crise do BRB contamine politicamente o GDF, sobretudo em um cenário pré-eleitoral. A estratégia, segundo críticos, passa por despersonalizar responsabilidades, diluir culpas e tratar o escândalo como um problema técnico — quando, na prática, envolve decisões políticas, nomeações estratégicas e falta de fiscalização.
Enquanto isso, o ônus da crise ameaça recair sobre os empregados do banco e, em última instância, sobre a sociedade do Distrito Federal, acionista majoritária da instituição. Sem transparência plena, responsabilização clara e mudanças estruturais, o BRB corre o risco de prolongar a crise e comprometer ainda mais sua credibilidade no mercado.





















