Enquanto o Palácio do Buriti fala em aperto orçamentário e prega austeridade, dados oficiais da própria Secretaria de Economia apontam crescimento real da arrecadação em 2025
O discurso de crise adotado pelo governador Ibaneis Rocha (MDB) para justificar cortes e contenções em áreas sensíveis, como a Saúde, passou a ser publicamente questionado por auditores fiscais do Distrito Federal. Em meio a anúncios de que será preciso “manter o cinto apertado” em 2026 e a episódios incomuns, como o atraso nos repasses ao Hospital da Criança de Brasília, a Associação dos Auditores Fiscais da Receita do DF (Aafit) sustenta que não há colapso de arrecadação que explique o cenário descrito pelo Executivo.
Nos últimos meses, Ibaneis tem atribuído as dificuldades orçamentárias a um contexto macroeconômico adverso, marcado por juros elevados, desaceleração da atividade econômica e, sobretudo, queda na receita tributária. A narrativa, porém, não encontra respaldo nos números consolidados da arrecadação.
Segundo dados oficiais da Secretaria de Economia, compilados pela Aafit, a receita proveniente de impostos somou R$ 24,14 bilhões entre janeiro e novembro de 2025. O valor representa crescimento nominal de 6,6% em relação ao mesmo período de 2024 e ganho real de 1,6% após o desconto da inflação. Longe de indicar retração, os números apontam expansão moderada, mas consistente.
A análise detalhada dos tributos reforça esse diagnóstico. O ICMS, principal fonte de arrecadação do DF, teve aumento real de R$ 250,3 milhões no acumulado do ano. O ISS cresceu R$ 227,2 milhões, enquanto o Imposto de Renda Retido na Fonte avançou R$ 155,6 milhões. Até mesmo o ITCD apresentou desempenho acima da média histórica, impulsionado por fatores pontuais ligados ao seu fato gerador.
As quedas existiram, mas foram concentradas em receitas específicas. O ITBI registrou retração real de R$ 177,3 milhões, reflexo direto do desaquecimento do mercado imobiliário. Taxas em geral recuaram R$ 167 milhões, e o IPTU caiu R$ 33,1 milhões. Para os auditores, essas variações são insuficientes para sustentar a tese de uma crise generalizada nos cofres públicos.
De acordo com o presidente da Aafit, Rubens Roriz, a meta de arrecadação tributária prevista no orçamento de 2025, estimada em cerca de R$ 26 bilhões, deve ser alcançada ou ficar muito próxima disso com a consolidação dos dados de dezembro. Mais do que isso, a arrecadação total do Distrito Federal já teria superado a previsão da Lei Orçamentária Anual, alcançando R$ 42,4 bilhões até o fim do ano, frente a uma estimativa inicial de R$ 41,083 bilhões.
Diante desse cenário, a crítica dos auditores é direta: o problema fiscal do DF não estaria na entrada de recursos, mas na forma como eles vêm sendo administrados. A entidade aponta crescimento acelerado de despesas, contratos desequilibrados e fragilidades na gestão, especialmente na área da saúde, como fatores que pressionam o orçamento.
A Secretaria de Economia, por sua vez, reconheceu em nota que algumas receitas ficaram abaixo do projetado, mas não especificou quais fontes frustraram as expectativas nem detalhou os cortes ou remanejamentos previstos. O governador insiste que o orçamento da Saúde se mostrou insuficiente diante do aumento do custo de insumos e de desequilíbrios contratuais, citando o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde (IGES) como um dos focos de pressão.
O embate revela mais do que uma divergência técnica. Ele expõe uma disputa política e narrativa sobre responsabilidade fiscal, prioridades de governo e transparência na gestão dos recursos públicos. Se os números oficiais indicam arrecadação em crescimento, a insistência no discurso de crise levanta questionamentos sobre a real origem do desequilíbrio e sobre quem, de fato, está pagando a conta das escolhas do governo.
No centro dessa guerra de números, permanecem os serviços públicos e a população do Distrito Federal, que assiste à retórica do aperto enquanto os dados sugerem que o dinheiro continua entrando, ainda que esteja sendo gasto mais rápido, ou de forma menos eficiente do que deveria.






















