A indignação seletiva é um dos maiores obstáculos ao enfrentamento da corrupção no Distrito Federal. Após a publicação de um artigo que comparava as gestões de Agnelo Queiroz (PT) e Ibaneis Rocha (MDB), leitores questionaram por que outros governadores não foram citados. A resposta é simples e incômoda: o problema não é um nome, um partido ou uma ideologia. O problema é estrutural e atravessa governos, décadas e discursos.
A história recente do DF é um verdadeiro inventário de escândalos. Desde Joaquim Roriz, o primeiro grande símbolo do poder local, a relação entre o Palácio do Buriti e o dinheiro público tem sido marcada por suspeitas, investigações e condenações. Roriz foi investigado na Operação Aquarela, condenado por improbidade administrativa e teve familiares envolvidos em processos por lavagem de dinheiro. Ainda assim, manteve influência política por anos, evidenciando a tolerância institucional e social com a corrupção.
José Roberto Arruda elevou esse padrão a um novo patamar. A Operação Caixa de Pandora revelou um esquema de corrupção explícito, com imagens do então governador recebendo propina em dinheiro vivo. Arruda foi condenado em múltiplas instâncias e chegou a ser preso, mas o impacto político duradouro foi mínimo: o sistema que o sustentava permaneceu praticamente intacto.
Nem mesmo nomes associados a uma imagem ética escaparam ilesos. Cristovam Buarque foi condenado em primeira instância por uso indevido de recursos públicos, embora posteriormente absolvido pelo Superior Tribunal de Justiça. Já Rodrigo Rollemberg teve seu governo envolvido em investigações que culminaram na Operação 1226. O inquérito acabou arquivado por falta de provas, mas deixou marcas de desconfiança e desgaste institucional.
O padrão é claro e deprimente: governantes de esquerda, centro ou direita chegam ao poder prometendo ruptura, mas acabam reproduzindo práticas antigas. Muda-se o discurso, as bandeiras ideológicas e os slogans de campanha. O resultado concreto, porém, permanece o mesmo: hospitais sucateados, escolas abandonadas, transporte público ineficiente e uma população refém da má gestão crônica.
O debate ideológico, embora barulhento, funciona muitas vezes como cortina de fumaça. Enquanto eleitores se dividem em torcidas partidárias, o erário continua sendo tratado como propriedade privada por quem deveria administrá-lo com responsabilidade. A indignação surge apenas quando o escândalo envolve o “outro lado”.
O Distrito Federal não sofre por falta de alternância de poder. Sofre por falta de consequência real, de mecanismos eficazes de controle, transparência e punição. Enquanto a política local continuar baseada em narrativas morais vazias e não em resultados concretos, a população seguirá trocando apenas os rostos nunca o sistema.
O DF merece mais do que esse carrossel de escândalos. Mas isso exigirá abandonar a ingenuidade de acreditar que ideologia, por si só, é antídoto contra a corrupção. A experiência mostra exatamente o contrário.





















