Há um Distrito Federal que existe nos vídeos, nas hashtags e nos slogans. E há outro DF, o que se vê nas UPAs lotadas, nas filas da farmácia de alto custo e nos boletins de óbito. Entre um e outro, a distância é a mesma que separa Alice do Coelho Branco: basta seguir o personagem certo para cair num buraco onde a lógica se inverte onde cortar recursos é “ajuste responsável” e gastar recorde em autopromoção é “comunicação institucional”.
A marca “Leoa”, assumiu o Palácio do Buriti, em 30 de março, Celina Leão (PP) construiu uma identidade visual e discursiva em torno do apelido “Leoa” — presente na bio de suas redes oficiais (“Modo Leoa ativado”), em eventos de pré-campanha como o “Leoa pelo DF” e em peças de conteúdo do canal de divulgação de seu mandato. A narrativa é consistente: uma gestora que “calça a botina”, “não espera a poeira baixar” e headline após headline é descrita por veículos simpáticos como imparável, pragmática, “voltada para as ruas”.
No mesmo período, o GDF também trocou sua marca institucional nova logomarca, novo conceito (“Propósito pra cuidar, coragem pra mudar”), manual de aplicação em secretarias, placas de obras e campanhas oficiais. Duas marcas, duas narrativas de cuidado, convergindo no mesmo verbo: cuidar.
O problema começa quando se pergunta: cuidar de quem, exatamente? Do outro lado do espelho: quem esperou e não foi atendido. Em 20 de junho, Vilmar Santos, 49 anos, morreu dentro da UPA do Recanto das Emas depois de esperar atendimento por horas — moradores falam em até quatro horas; outros relatos apontam mais de doze. O Iges-DF alegou que ele não tinha ficha aberta; a comunidade protegeu o corpo até a polícia chegar. Menos de um mês depois, em 12 de julho, Rodrigo Resende Prado, 46 anos, morreu em frente ao Hospital de Base — a família diz que ele pediu socorro várias vezes antes de desmaiar; o Iges-DF, mais uma vez, contesta a demora.
Esses dois nomes não são exceção: pesquisa do ObservaDF estima uma fila reprimida de mais de 100 mil consultas, exames e procedimentos, e o SindSaúde-DF relata Unidades Básicas de Saúde funcionando meses sem nenhum médico. Paralelamente, pacientes da Farmácia de Alto Custo relatam rotineiramente até quatro horas de espera para remédios que não podem faltar — como o transplantado hepático que, em abril, temia perder o órgão por não conseguir retirar o tacrolimo a tempo. Em junho, o próprio TCDF abriu apuração sobre a situação da unidade da Asa Sul e deu 30 dias para a Secretaria de Saúde explicar o que está sendo feito.
Não é uma governadora ausente diante da tragédia: depois da morte de Vilmar Santos, Celina determinou apuração ao Iges e à SES-DF. Mas a resposta institucional segue o mesmo roteiro de sempre abrir procedimento, prometer rigor, aguardar a próxima manchete.
A Rainha de Copas manda cortar, menos a própria propaganda. É aqui que a metáfora de Wonderland deixa de ser força de expressão e vira quase descrição literal de um decreto. Em 24 de abril, Celina Leão assinou o Decreto nº 48.509/2026, que determina corte de até 25% em contratos de custeio do governo, terceirizados, locação, tecnologia da informação, eventos e patrocínios — alegando um déficit orçamentário superior a R$ 2,7 bilhões. No mesmo pacote, o governo suspendeu reajustes salariais e mandou revisar benefícios sociais do Fundo de Assistência Social, sob o argumento de corrigir “inconsistências cadastrais”.
No mesmo momento literalmente na mesma semana, a Secretaria de Comunicação do DF manteve o andamento de uma concorrência para contratar quatro agências de publicidade com disponibilidade financeira anual estimada em R$ 200 milhões, R$ 40 milhões a mais do que o contrato anterior. Com os aditivos legais permitidos, esse valor pode chegar a R$ 250 milhões por ano. Segundo reportagem da Brasil de Fato, que teve acesso ao edital, o briefing técnico da concorrência estabelece como meta reposicionar a imagem institucional do governo, para que programas sociais tenham o mesmo reconhecimento público das grandes obras — a campanha “Renova DF” aparece como exemplo citado no próprio documento. Procurado pela reportagem, o GDF não respondeu sobre a coincidência entre o corte e o aumento.
Corta-se o SUS que não consegue atender a tempo. Corta-se o socorro. Mantém-se, e amplia-se, o orçamento para contar a história de que está tudo bem.
O chá que nunca acaba. No Wonderland de Lewis Carroll, o Chapeleiro Maluco está preso numa festa de chá perpétua, sempre trocando de lugar na mesma mesa, sem que o tempo avance de verdade. É difícil não enxergar um paralelo: enquanto peças de “Modo Leoa” circulam nas redes com a mesma cadência de sempre — cuidado, proximidade, entrega, o relógio da saúde pública do DF continua marcando a mesma hora há anos, e as filas continuam sendo as mesmas filas, e os pacientes com doenças crônicas continuam sem saber se vão encontrar o remédio na prateleira.
A pergunta que fica não é se existe uma leoa cuidando do DF. É de quem, exatamente, ela está cuidando, e quem sobrou do lado de fora da moldura da campanha.





















