Investigações do MP apontam que o parlamentar utilizou influência política para agilizar contratos fraudulentos e direcionar milhões em emendas.
Novas revelações de escutas telefônicas obtidas pelo Ministério Público (MP) detalham a atuação direta do deputado distrital Hermeto (MDB) em um suposto esquema de desvio de verbas na Secretaria de Educação do Distrito Federal. Segundo as investigações, o parlamentar teria sido peça-chave para viabilizar um contrato de aluguel superfaturado e o repasse irregular de emendas parlamentares, totalizando prejuízos que podem ultrapassar os R$ 47 milhões.
A Intervenção Direta e o “Boto Quente”
O material transcrito pelo MP mostra que Hermeto agiu deliberadamente para acelerar processos de dispensa de licitação. Em uma das conversas gravadas, a então coordenadora de ensino Ana Maria Alves da Silva solicita que o deputado ligue para o secretário de Educação da época, João Pedro Ferraz, a fim de dar agilidade a um processo de aluguel. Hermeto aceitou o pedido e chegou a solicitar que a coordenadora redigisse um “texto” para que ele soubesse exatamente o que falar ao secretário.
A eficácia da intervenção foi imediata: a minuta do contrato foi enviada por e-mail ao empresário beneficiado na tarde do mesmo dia da ligação. Em diálogos posteriores, o deputado vangloriou-se de sua influência, afirmando que o secretário era seu “chegado” e que, sem sua entrada “no circuito”, o processo não avançaria. Ao confirmar a aprovação de uma vistoria técnica no local, Hermeto disparou: “Num te falei que eu boto quente?”.
Galpão em Setor de Motéis e Contrato de R$ 20 Milhões
O esquema central envolvia o aluguel de um galpão para abrigar temporariamente os estudantes do Centro Educacional 1 (CEF 01) da Candangolândia. A justificativa era a precariedade da escola, embora a coordenadora Ana Maria não tenha apresentado laudos técnicos que comprovassem tais declarações.
O imóvel escolhido pertencia ao empresário Carlos Eduardo Coelho Ferreira e situava-se em um setor de motéis. Além da localização inadequada, o galpão ainda não pertencia formalmente ao empresário no início do processo e foi alugado por R$ 329 mil mensais. Ao final de cinco anos, o contrato custaria R$ 20 milhões aos cofres públicos, sendo que o dinheiro teria sido usado pelo empresário para financiar o próprio imóvel vizinho.
Desvios via Emendas Parlamentares (PDAF)
As suspeitas contra o deputado Hermeto estendem-se também ao direcionamento de R$ 27 milhões em emendas do Programa de Descentralização Administrativa e Financeira (PDAF). Esses recursos foram enviados para uma associação ligada a Ana Maria Alves da Silva. As investigações do MP apontam graves irregularidades nas prestações de contas desses valores, incluindo notas fiscais suspeitas, valores superfaturados e orçamentos de empresas que sequer possuíam atividade econômica compatível com os serviços contratados.
Impacto para o Cidadão e Reações
Especialistas e órgãos de controle alertam que o desvio desses recursos impacta diretamente a qualidade do ensino público, resultando em falta de materiais didáticos e na postergação de obras essenciais.
Em sua defesa, o deputado Hermeto afirmou em nota que não teve influência no processo licitatório e que sua atuação visou apenas garantir celeridade para a transferência dos alunos de uma estrutura que considerava precária, agindo em nome do interesse público. A Secretaria de Educação alegou que a escolha do imóvel seguiu critérios técnicos e que a interdição da escola original foi necessária para garantir a segurança da comunidade escolar. As defesas de Ana Maria, João Pedro Ferraz e Carlos Eduardo não foram encontradas para comentar as acusações.
























