O Pantanal de Mato Grosso do Sul enfrenta, em 2026, uma combinação que acende um alerta para o futuro do bioma: o avanço expressivo das queimadas ocorre ao mesmo tempo em que grandes propriedades rurais e megafazendas ganham cada vez mais espaço na paisagem pantaneira.
Dados do Cemtec (Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima) e do Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul mostram que o Pantanal já teve 80.449 hectares queimados entre 1º de janeiro e 17 de agosto de 2026. O número representa um salto de 344,6% em relação aos 18.096 hectares registrados no mesmo período de 2025.
O crescimento também aparece na quantidade de ocorrências. Foram contabilizados 113 eventos de fogo, contra 81 no mesmo intervalo do ano passado — aumento de 39,5%.
O cenário chama atenção porque o Pantanal havia registrado 121 mil hectares queimados durante todo o ano de 2025. Em pouco mais de sete meses de 2026, o bioma já atingiu aproximadamente 66% de toda a área consumida pelo fogo no ano passado.
A dimensão do problema fica ainda mais evidente quando comparada com o levantamento anterior. Entre janeiro e 15 de julho, o Pantanal acumulava 58.878 hectares queimados, contra 6.762 hectares no mesmo período de 2025, uma diferença de 770%.
Fogo cresce enquanto grandes propriedades avançam
O aumento das queimadas ocorre em um Pantanal que também passa por profundas transformações econômicas e territoriais. Nos últimos anos, grandes propriedades rurais e extensas áreas destinadas à produção agropecuária passaram a ocupar uma parcela cada vez mais relevante da paisagem pantaneira de Mato Grosso do Sul.
O surgimento e a expansão de megafazendas levantam uma discussão que vai além do tamanho das propriedades: qual é o impacto da concentração de grandes áreas produtivas sobre um bioma marcado por períodos de seca, cheias, incêndios e extrema sensibilidade ambiental?
A existência de grandes propriedades, por si só, não significa irregularidade. O ponto de atenção está na necessidade de fiscalização sobre o uso do solo, abertura e manutenção de áreas, manejo da vegetação, construção de estradas e aceiros, armazenamento de material combustível e cumprimento das regras ambientais.
Em períodos de estiagem severa, qualquer alteração na dinâmica da vegetação pode aumentar a vulnerabilidade de determinadas regiões ao fogo. Por isso, o crescimento simultâneo das queimadas e das grandes áreas produtivas reforça a necessidade de transparência sobre como essas propriedades estão sendo implantadas, licenciadas e fiscalizadas.
15 municípios estão em alerta alto
O próprio levantamento das autoridades estaduais coloca 15 municípios de Mato Grosso do Sul em classificação de alerta alto para a probabilidade de fogo entre agosto e outubro.
A lista inclui Ladário, Bodoquena, Miranda, Aquidauana, Terenos, Rio Verde de Mato Grosso, Rio Negro, Coxim, Camapuã, São Gabriel do Oeste, Costa Rica, Aparecida do Taboado, Paranaíba, Três Lagoas e Água Clara.
Outros 15 municípios aparecem em situação de alerta. Nenhuma cidade do Estado foi classificada na categoria de baixa probabilidade de fogo.
O período também é marcado pela baixa umidade relativa do ar. Nos últimos dias, municípios sul-mato-grossenses apareceram entre os mais quentes e secos do país, enquanto o Inmet colocou o Estado sob alerta laranja para baixa umidade.
Pantanal pode enfrentar meses ainda mais críticos
A preocupação aumenta diante da possibilidade de condições climáticas favoráveis à propagação do fogo nos próximos meses. O El Niño também aparece entre os fatores que podem contribuir para períodos de calor e estiagem mais intensos.
Embora uma frente fria tenha previsão de provocar queda nas temperaturas e possibilidade de chuva em parte do Estado a partir de quinta-feira (20), o cenário não elimina o risco de incêndios durante o restante da temporada seca.
O Pantanal, portanto, chega à segunda metade de agosto com mais de 80 mil hectares já destruídos pelo fogo, enquanto grandes propriedades rurais continuam transformando a ocupação do território.
O desafio para Mato Grosso do Sul será conciliar a atividade econômica com a preservação de um dos biomas mais importantes do planeta. E, diante da multiplicação das áreas queimadas, a discussão sobre o avanço das megafazendas não pode ficar restrita ao tamanho das propriedades: é preciso saber onde estão essas áreas, como foram licenciadas, qual atividade desenvolvem, quais impactos provocam e como o poder público está fiscalizando cada uma delas.
Enquanto essas respostas não aparecem de forma transparente, o Pantanal continua queimando — e a cada novo hectare consumido pelo fogo, aumenta também a pressão sobre um bioma que já enfrenta profundas mudanças em sua paisagem.




















