O prefeito de Paraú (RN), João Evaristo Peixoto, o Júnior Evaristo (PP), foi flagrado pela Polícia Federal negociando uma suposta propina e pedindo um “brinde do dia das mães” ao sócio da empresa que fornece medicamentos ao município de apenas 3,4 mil habitantes.
Júnior foi um dos alvos da operação Mederi, que apura um suposto esquema de desvio de verbas na compra de remédios por prefeituras em ao menos cinco cidades do Rio Grande do Norte: Paraú, Serra do Mel, Mossoró, São Miguel e José da Penha.
Na última terça-feira, Júnior, a empresa investigada Dismed e o empresário Oseas Monthalggan Fernandes Costa (sócio da Dismed e interlocutor do prefeito) foram alvos de mandados de busca e apreensão determinados pelo desembargador Rogério Fialho Moreira, do TRF-5 (Tribunal Regional Federal da 5ª Região).
A investigação começou após a PF receber do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) informes sobre saques milionários em espécie da conta da empresa.
Na sede da Dismed, no dia da operação, a PF encontrou R$ 52 mil em uma caixa de isopor. A empresa diz que o dinheiro tem origem lícita (leia mais abaixo).
O UOL tentou encontrar contatos do prefeito Júnior Evaristo e da prefeitura, mas não conseguiu. A reportagem enviou mensagem no perfil do prefeito no Instagram, mas não houve retorno. O espaço segue aberto para manifestação.
Flagra da PF
A conversa entre Júnior e Oseas ocorreu na sala do empresário na Dismed, em Mossoró, no dia 8 de maio de 2025, uma quinta-feira anterior ao dia das mães. No local, a PF havia instalado uma câmera e uma escuta ambiental.
O equipamento flagrou, antes da entrada do prefeito, Oseas manuseando dinheiro vivo.
Em seguida, segundo a PF, os dois passaram a tratar de comissões referentes à compra de remédios, em que citam um percentual de 10%.
A menção de João Evaristo Peixoto ao ‘brinde do dia das mães’ e a aceitação da oferta de Oseas para que o presente seja adquirido “no nome da empresa, que sai mais barato” evidencia a disposição do gestor público em aceitar benefícios do fornecedor. A circunstância de que o próprio Oseas toma a iniciativa de ofertar o presente e o gestor público aceita sem hesitação constitui elemento relevante para caracterização do relacionamento entre ambos.
Trecho da decisão de Rogério Fialho Moreira
PF vê prefeito como “elo necessário”
No despacho em que pede os mandados, a PF cita que o diálogo interceptado sugere uma divisão de funções entre os investigados.
Oseas aparece como “articulador comercial”, com domínios operacionais e financeiros das transações, “mantendo controle sobre valores, prazos e procedimentos administrativos”.
Sua atuação no esquema, segundo os investigadores, envolveria:
gestão direta das relações comerciais com o município;
controle da elaboração de ordens de compra;
articulação para manter exclusividade no fornecimento;
execução de pagamentos ou entregas de valores.
O prefeito Júnior Evaristo, afirma a PF, seria o “elo necessário no âmbito da administração pública para viabilização das operações”.
Sua participação na conversa sobre valores e percentuais, conjugada com a aceitação de benefícios e com a aparente concordância quanto à exclusividade de fornecimento, sugere papel de facilitador ou garantidor das condições comerciais favoráveis à empresa Dismed. A expressão ‘Arroche o nó! Não deixe não!’, dirigida por Oseas Monthalggan ao gestor público, reforça essa interpretação.Relatório da PF
Para reforçar a suspeita de pagamento de propina, a PF ainda apurou que, entre os dias 8 de abril e 5 de maio, a prefeitura de Paraú realizou seis pagamentos em um total de R$ 48,1 mil, que seriam compatíveis com o que é conversado —o que reforça a suspeita de propina.
Entre 2024 e 2025, a Dismed recebeu da Prefeitura de Paraú um total de R$ 336,8 mil em pagamentos de medicamentos.
O conjunto dos elementos probatórios, quando analisado sistemicamente, revela padrão de conduta caracterizado por familiaridade excessiva entre gestor público e fornecedor privado, discussão de valores financeiros em ambiente reservado, referências a cálculos percentuais cuja natureza não fica esclarecida, aceitação de benefícios pelo gestor público e articulação para manutenção de exclusividade nas contratações públicas.Relatório da PF
No pedido à Justiça, a PF solicitou que o prefeito fosse afastado do cargo. O desembargador negou, por entender que seria uma medida extrema, e impôs outras medidas, como fiança de R$ 100 mil e uso de tornozeleira eletrônica. No caso de Oseas, determinou a suspensão do exercício de atividade econômica.
Além disso, o desembargador requisitou às cinco prefeituras sob suspeita todos contratos firmados com a Dismed e com as demais empresas investigadas.
Em nota, a defesa da Dismed e de Oseas diz que está “confiante de que o esclarecimento técnico e documental demonstrará a inexistência de qualquer conduta criminosa”.
Sobre os diálogos que constam na apuração, a defesa diz que aguarda o acesso integral aos autos para analisar o conteúdo. “A Dismed atua há 18 anos de forma contínua e regular no comércio atacadista de medicamentos, exercendo atividade lícita, fiscalizada e amplamente reconhecida no mercado, sem histórico de irregularidades.”Sobre o dinheiro achado na sede da empresa, a Dismed diz que os R$ 52 mil “decorrem de atividade comercial lícita, são plenamente compatíveis com o ramo farmacêutico e não configuram qualquer ilícito, sendo pacífico o entendimento de que a manutenção de numerário em residência, por si só, não constitui crime”.
UOL























